Quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 7 de outubro de 2026
O estelionato tem crescido no Brasil nos últimos anos. Em 2025, foram 2,26 milhões de casos registrados (1.059,4 por 100 mil habitantes), conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, recorde da série histórica. Explorando a fragilidade de quem está atrás de trabalho, muitos estelionatários aplicam o golpe da “falsa vaga de emprego”, por meio do qual roubam senhas, cometem fraude financeira ou usam informações pessoais – e até biometria facial – para obter vantagens, abrir contas bancárias ou conseguir empréstimos.
Para isso, as estratégias são variadas, conforme relatos de vítimas e especialistas: de falsos anúncios de vagas e concursos até entrevistas com golpistas que fingem ser recrutadores. Há os que criam sites e perfis nas redes sociais e pagam para que o conteúdo fraudulento fique bem ranqueado em buscadores da internet. “Quando alguém está desesperado para conseguir um emprego, o nível de critério e discernimento pode diminuir”, diz Leonardo Pinheiro, sócio da Clavis, plataforma brasileira de cibersegurança voltada à proteção de empresas contra riscos e ameaças digitais.
Outra tática comum é a de dizer que a vítima deve pagar por um curso falso como condição obrigatória para assumir o novo emprego. Foi o que ocorreu com a nutricionista Izabelle Mendonça, de 26 anos. Recém-formada, ela buscava o primeiro emprego. Após enviar o currículo a vários hospitais, um deles entrou em contato, disse que a admitiria, mas que deveria ir até o hospital para dar andamento ao processo.
“Durante o processo, me disseram que um dos requisitos era ter a certificação de um curso específico. E eu não tinha.”
Os golpistas deram a indicação de onde ela poderia fazer a qualificação, com a promessa de que receberia o certificado no prazo. “Como queria muito a vaga, não desconfiei.”
Ela entrou em contato com o lugar e pagou R$ 300 pelo curso fake. Minutos depois, todos com quem ela estava conversando a bloquearam no aplicativo de mensagens.
Leonardo Pinheiro explica que a maior parte dos anúncios de falsas vagas é enviada via email e mensagens de celular (SMS). Esses canais são mais fáceis para fazer disparos em massa e têm menos barreiras de proteção. Geralmente, os golpistas enviam um link de inscrição, que leva a vítima a um formulário online que pede informações pessoais e exige a criação de conta com senha. “Como muita gente utiliza a mesma senha em diferentes serviços, o golpista pode conseguir acessar seu e-mail, redes sociais e outras contas.”
Há casos em que os golpistas encenam entrevista de emprego. O objetivo é gravar a vítima e obter dela a biometria facial para acessar contas bancárias, obter empréstimos, abrir contas e fazer transações.
No LinkedIn, rede social voltada a carreiras, divulgação de vagas e recrutamento, a SPTrans, empresa municipal que gere o transporte por ônibus em São Paulo, foi usada como trampolim pelos estelionatários. Eles anunciaram uma vaga de assistente administrativo comercial e exigiam dos candidatos o pagamento de um curso como requisito para avançar na contratação, com a promessa de que seriam reembolsados. “Disseram que eu precisaria realizar um curso pelo Telegram”, disse uma usuária. Ela recebeu e-mail, informando que tinha sido aprovada na seleção, e quase caiu no golpe. “Foi nesse momento que percebi que havia algo muito errado. Empresas sérias não costumam exigir pagamentos para que um candidato participe de um processo seletivo.”
Em nota, a SPTrans alertou: “Não efetue nenhum pagamento e não forneça dados pessoais”. Procurado, o LinkedIn informou que as políticas da plataforma “deixam claro que toda vaga publicada deve ser autêntica e legítima”.
Concursos públicos forjados também são usados para atrair vítimas. Em julho, Luiza (nome fictício), soube de um concurso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desempregada havia um ano, ela pesquisou em um buscador e, segundo diz, encontrou um link que seria patrocinado – aparecendo no topo das buscas – para efetuar a inscrição. No site falso, viu o logo do gov.br (plataforma oficial do governo federal). Ela inseriu dados pessoais e pagou a taxa de inscrição de cerca de R$ 100. Na sequência, foi encaminhada a uma página que a informava sobre a necessidade de realizar um exame médico para saber se estava clinicamente apta. Estranhou ao ver que o endereço da clínica que tinha selecionado não batia com o endereço da clínica verdadeira. Depois, que o link só abria no celular e não no notebook. “Era um mês em que eu estava apertada de grana, fatura alta, e eu acabei caindo nesse golpe”, lamentou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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