O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, convocaram líderes de Wall Street para uma reunião urgente diante de preocupações de que o mais recente modelo de inteligência artificial da Anthropic possa inaugurar uma nova fase de riscos cibernéticos.
A lista de executivos chamados para o encontro de alto nível incluiu Jane Fraser, do Citigroup; Ted Pick, do Morgan Stanley; Brian Moynihan, do Bank of America; Charlie Scharf, do Wells Fargo; e David Solomon, do Goldman Sachs, segundo fontes ouvidas pela reportagem. Jamie Dimon, do JPMorgan, não participou. Procurados, porta-vozes dos bancos evitaram comentar, enquanto um representante da Anthropic também não se manifestou de imediato.
Bessent e Powell reuniram o grupo na sede do Tesouro, em Washington, na última terça-feira, com o objetivo de alertar as instituições financeiras sobre possíveis riscos associados ao Mythos, novo modelo de IA da Anthropic, além de outras tecnologias semelhantes. A intenção foi reforçar a necessidade de medidas preventivas para proteger sistemas sensíveis, de acordo com fontes.
A reunião, que não havia sido divulgada anteriormente e foi organizada com pouco aviso prévio, é mais um indicativo de que reguladores enxergam a possibilidade de uma nova geração de ataques cibernéticos como uma das principais ameaças ao sistema financeiro. Todos os bancos convocados são considerados sistemicamente importantes, o que torna sua estabilidade um fator crítico para a economia global.
A preocupação das autoridades reflete a própria cautela da Anthropic. Inicialmente, a empresa restringiu o acesso ao Mythos a um grupo seleto de grandes companhias de tecnologia e finanças, incluindo Amazon, Apple, Microsoft, Cisco e JPMorgan Chase. Essas empresas integram o “Projeto Glasswing”, iniciativa voltada à proteção de sistemas críticos antes da disseminação mais ampla de ferramentas semelhantes. A proposta é compartilhar descobertas e estratégias de defesa entre os participantes.
“Achamos que isso não é apenas um problema exclusivo da Anthropic. É um desafio de toda a indústria, que envolve tanto empresas privadas quanto governos”, afirmou Newton Cheng, responsável pelas iniciativas de segurança cibernética da equipe Frontier Red Team da Anthropic. “O objetivo do Glasswing é oferecer uma vantagem inicial para quem está na defesa.”
A empresa informou ainda que manteve diálogo com autoridades dos Estados Unidos antes do lançamento do Mythos, abordando suas capacidades ofensivas e defensivas no campo cibernético.
Embora não tenha sido desenvolvido especificamente para cibersegurança, o modelo é capaz de identificar e explorar vulnerabilidades em sistemas operacionais e navegadores quando instruído a fazê-lo. Segundo Cheng, o Mythos já localizou falhas relevantes, incluindo um erro de 27 anos presente em softwares críticos da internet.
A Anthropic também afirmou que o sistema identificou uma vulnerabilidade de 16 anos em um software de vídeo amplamente utilizado, que havia passado por milhões de análises automatizadas sem detecção.
Dianne Penn, chefe de gestão de produto para pesquisa na empresa, destacou que há controles rigorosos para limitar o acesso ao Mythos dentro do Projeto Glasswing, mas não detalhou os mecanismos por razões de segurança.
Paralelamente, a Anthropic enfrenta uma disputa judicial com o governo Trump. O Pentágono classificou a companhia como um risco à cadeia de suprimentos, decisão contestada pela empresa. Nesta semana, um tribunal federal de apelações rejeitou, ao menos por enquanto, o pedido para suspender essa classificação.
