Quinta-feira, 03 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 25 de agosto de 2020
Desde o início da pandemia, o Estado brasileiro gastou no mínimo 18 milhões de reais adquirindo ou produzindo remédios sem eficácia comprovada contra o coronavírus. Um levantamento feito pelo jornal O Globo apontou que Estados, cidades e a União compraram hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina e azitromicina, sem comprovação científica de que esses remédios auxiliem no combate ao vírus.
Só o Ministério da Saúde distribuiu 5,2 milhões de comprimidos de cloroquina a Estados e municípios. A pasta informou um gasto de R$ 207 mil para adquirir 3 milhões de unidades do remédio produzidos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Já o Exército, que tem laboratório próprio e repassa o produto para a pasta da Saúde fazer a distribuição, desembolsou mais R$ 1,1 milhão para produzir 3 milhões de cápsulas de cloroquina, quantidade suficiente para 18 anos, considerando o uso do medicamento no Brasil em anos anteriores.
A Força ainda tem em estoque 400 mil comprimidos, segundo dados do último dia 20. A pasta da Saúde tem mais 3 milhões de comprimidos armazenados: 2 milhões de unidades doadas pelos Estados Unidos e 1 milhão por uma multinacional farmacêutica. A apresentação do remédio estocado na Saúde é de 200 mg – o dobro da unidade usada no país, de 100 mg, o que tem inviabilizado o uso.
O levantamento mostra que oito Estados tiveram despesas próprias com drogas sem eficácia comprovada. Mato Grosso do Sul, Pará, Tocantins e Acre adquiriram hidroxicloroquina. Já Pará, Tocantins, Roraima, Maranhão e Acre compraram azitromicina, droga que chegou a ser indicada como complementar à cloroquina em tratamentos experimentais, também sem evidências científicas.
A soma incluiu também os gastos com ivermectina, remédio antiparasitário e vermífugo cujo uso se popularizou nos últimos meses contra a Covid-19, apesar de não haver comprovação de sua eficácia. Tocantins, Distrito Federal, Maranhão, Acre e Amazonas adquiram quantidades expressivas do remédio, com um gasto declarado de mais de R$ 80 mil aos cofres públicos.
Para o infectologista Julival Ribeiro, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o motivo desse tipo de gasto é a ausência de um protocolo padronizado imposto pelo governo federal de combate à doença – o governo orientou, inclusive, para que hospitais usassem a cloroquina, mesmo sem haver estudos embasando essa decisão.
“As evidências científicas não mostram a eficácia de nenhum desses remédios. Infelizmente não houve uma gestão eficiente por parte do governo federal e cada um fez os seus próprios protocolos, cada colega dando opiniões diferentes sobre uso de drogas”, diz Julival.
O Ministério da Saúde não respondeu sobre se considera um desperdício de dinheiro a produção de uma quantidade tão grande de cloroquina, considerando que diversos estudos científicos já indicaram sua ineficácia e apontaram, inclusive, efeitos colaterais potencialmente perigosos no seu uso em infectados pelo Covid-19. As informações são do jornal O Globo.
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