Sábado, 14 de março de 2026
Por Redação O Sul | 11 de março de 2026
O prolongamento da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã se fará sentir na economia brasileira. A principal dúvida diz respeito a quanto tempo durará a alta no petróleo. Com a batalha no Estreito de Ormuz, os preços encostaram em US$ 120 o barril, mas voltaram para a casa dos US$ 90 após Donald Trump declarar que “a guerra está praticamente concluída” e garantir que Ormuz está aberto — depois ele se desdisse, negando que o fim da guerra seja iminente. Quanto mais o conflito se estender, maior será a pressão. O Catar informou que, caso produtores do Golfo Pérsico sejam forçados a parar de produzir, o petróleo chegaria perto de US$ 150.
O impacto da alta do petróleo no Brasil se dá em dois tempos distintos. Para a Petrobras, num primeiro momento a perspectiva é positiva, com aumento das exportações a países que hoje importam do Oriente Médio. O governo também ampliaria receitas com royalties e impostos. Pelos cálculos do banco BTG Pactual, uma alta de US$ 10 elevaria a receita do governo em R$ 15,3 bilhões neste ano. E a entrada de dólares seguraria o câmbio, mitigando o efeito inflacionário. Levando tudo isso em conta, o Bradesco estima que, a cada 10% de aumento na cotação do barril, o PIB cresça algo como 0,15 ponto percentual a mais.
Mas, caso a guerra seja duradoura, em algum momento a Petrobras terá de repassar a alta nos preços às bombas, e os efeitos inflacionários serão inevitáveis. A presidente da petrolífera, Magda Chambriard, declarou que não pretende transferir “volatilidades ao mercado interno”. Mesmo assim, é inevitável o repasse se a alta perdurar. A mera possibilidade de que isso ocorra será suficiente para travar o corte dos juros pelo Banco Central — desacelerando o crescimento do PIB.
O Brasil também será afetado pela alta no custo dos transportes globais decorrente tanto do preço dos combustíveis quanto do choque logístico provocado pelo fechamento prolongado de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo exportado no mundo, 25% dos fertilizantes, 35% dos químicos e plásticos e 15% dos grãos. Os exportadores, em especial o agronegócio, já sentem o impacto. Embarcações com carnes a caminho do Oriente Médio foram obrigadas a desviar a rota. Há multas por atraso na entrega, além do custo do transporte rodoviário ou ferroviário para quem atraca em portos alternativos. Cargas prontas para o embarque têm ficado paradas nos portos. Grandes companhias de transporte marítimo cancelaram viagens ao Golfo e anunciaram sobretaxas para portos da Península Arábica. Mesmo locais distantes do Irã, como o Canal de Suez, no Egito, têm registrado interdições.
O Oriente Médio compra 15% da carne bovina, 20% do açúcar e 25% do frango exportado pelo Brasil. Só o Irã foi responsável por 23% do milho vendido no ano passado. Ao mesmo tempo, passam pelo Oriente Médio 28% da amônia e 29% dos fosfatos vendidos no mundo. Dos fertilizantes nitrogenados usados no agronegócio brasileiro, 30% vêm da região, responsável por 35% da ureia e 10% do potássio importados pelo Brasil em 2025 — o Irã é grande produtor de ureia. Os estoques ainda estão altos para a atual safra, e é possível encontrar outros fornecedores e rotas. Mas o preço já subiu e pode sair de controle caso o conflito se prolongue. Não há como a economia brasileira escapar ilesa a uma guerra que dure meses. (Opinião/Jornal O Globo)
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