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Brasil Há 20 anos, a Universidade Federal do Rio de Janeiro recusou uma verba de 80 milhões de dólares para a reforma do Museu Nacional, destruído por um incêndio

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O incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ocorreu em setembro de 2018. (Foto: Agência Brasil)

Destruído pelo fogo, o Museu Nacional já recebeu uma oferta milionária do Banco Mundial para reforma e modernização de sua estrutura. Essa história só veio à tona porque o dono dela diz estar revoltado com o descaso que culminou na destruição de 90% do acervo da instituição no incêndio do último domingo.

O museu está instalado em um palacete imperial e completou 200 anos em junho (foi fundado em 1818 por Dom João VI). Seu acervo, com mais de 20 milhões de itens, tinha perfil acadêmico e científico, com coleções focadas em paleontologia, antropologia e etnologia biológica. Menos de 1%, porém, estava exposto e foi queimado por um incêndio cujas causas estão sob apuração da Polícia Federal.

Israel Klabin, 91 anos, ex-presidente do grupo Klabin (papel e celulose), foi quem conseguiu o cheque de US$ 80 milhões do Banco Mundial para financiar a reforma do museu, por volta de 1997. Na cotação atual, o valor seria o equivalente a R$ 332 milhões. Ele disse que chegou a trabalhar no pré-projeto que seria apresentado à instituição financeira para o recurso ser liberado.

No entanto, o dinheiro nunca saiu do papel por um veto da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), responsável pela gestão da instituição museológica. Segundo Klabin, o Banco Mundial impôs uma condição para autorizar o recurso: a UFRJ teria de entregar a administração do museu, que passaria a ser uma organização social.

Na prática, o museu se tornaria uma associação privada sem fins lucrativos que presta serviços de interesse público. “Os professores e membros influentes da UFRJ foram contra”, disse o empresário.

O empresário tinha trânsito com o então presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, também seu amigo, e com o setor público – Klabin foi prefeito do Rio de Janeiro entre 1979 e 1980. Esse em reformar o palácio tinha também um motivo mais de ordem afetiva. Foi na então Universidade do Brasil, hoje conhecida como UFRJ, que o executivo cursou engenharia civil e matemática.

Pelos entraves que barraram a reforma, e, agora, com o incêndio que destruiu o museu, o executivo disse estar com raiva do Brasil:

“Sabe o que vai acontecer agora? Vai acontecer a mesma coisa com o Jardim Botânico, com a Biblioteca Nacional e várias outras instituições herdadas por um governo incapaz e ineficiente. Estamos vivendo em um estado cartorial. O Brasil inteiro nas mãos de governos ineficientes cuja gestão é sempre politizada”.

Manutenção

A falta de recursos é uma das causas que levaram o museu ao colapso. Os repasses caíram praticamente à metade nos últimos cinco anos: de R$ 1,3 milhão, em 2013, para R$ 643 mil, no ano passado.

A queda próxima de 50% foi maior do que a do total destinado pela União a um conjunto de 25 museus sob sua responsabilidade, que perderam 10% dos recursos. Ela ficou acima também dos cortes de outros investimentos federais.

Os dados foram levantados pela Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados, com base no Siafi (Sistema Integrado de Administração Financeira) do governo federal. A Folha corrigiu os valores pela inflação do período, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo).

Os recursos recebidos pelo Museu Nacional se referem a repasses da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que recebem verba do Ministério da Educação, e do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), ligado ao Ministério da Cultura, para itens como capacitação de servidores, concessão de bolsas de estudo, expansão e modernização da instituição.

Na segunda-feira, o pró-reitor de Planejamento e Finanças da UFRJ, Roberto Gambine, disse que a universidade não tem recursos suficientes para fazer a manutenção de seus 15 prédios tombados no Rio. Ele diz temer que o destino dos demais edifícios seja o mesmo do Museu Nacional. “O orçamento vem caindo ano a ano e a universidade não recebe verbas extras para a manutenção dessas unidades históricas”, lamenta.

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