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Acontece Haroldo de Souza: O Homem de 200 Grenais

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Haroldo de Souza, a voz que narra o Grenal há mais de cinco décadas, chega ao clássico de número 200.

Foto: Arquivo pessoal
"Adivinhe! Haroldo de Souza – A memória do narrador dos gaúchos – 50 anos de rádio no Rio Grande do Sul" mergulha na trajetória de um dos mais icônicos narradores do futebol brasileiro. (Foto: Reprodução)

No Rio Grande do Sul, o clássico entre Grêmio e Internacional não é apenas futebol. É identidade, é herança, é discussão de domingo, é abraço ou silêncio na segunda-feira. E, ao longo de meio século, uma voz ajudou a traduzir essa montanha-russa de sentimentos: Haroldo de Souza.

Aos 81 anos, ele alcança o histórico Grenal de número 200. Um número que impressiona — mas que não traduz completamente o que representa.
“Narrar 200 Grenais é ter vivido duzentas vidas diferentes em 90 minutos.”

“Eu não conhecia o Grenal”, recorda Haroldo. Quando desembarcou em Porto Alegre, em 1974, vinha de Belo Horizonte, acostumado a grandes clássicos. Em 1975, no segundo confronto que narrou, lançou a frase que se tornaria sua assinatura histórica: “Estou realizando, em Porto Alegre, o maior clássico do futebol brasileiro.”

Na época, muitos acharam exagero. Mas era intuição. Era sensibilidade. Era o olhar de quem percebeu que ali havia algo diferente.
“O Grenal é uma vida feita em 90 minutos.” 

Duzentos clássicos equivalem a 18 mil minutos de bola rolando. São 300 horas apenas de tempo regulamentar — 12 dias e meio narrando sem parar. Se somarmos pré-jogo, intervalo e pós-partida, são mais de 500 horas dedicadas exclusivamente ao clássico. São 52 anos atravessando gerações, do antigo Olímpico ao Beira-Rio, até a moderna Arena do Grêmio. Haroldo viu craques como Falcão, Figueroa, Renato Portaluppi, Fernandão e D’Alessandro escreverem capítulos inesquecíveis. “Cada Grenal é diferente. Pode até terminar 0 a 0. Mas nunca termina vazio.”

Sua voz não apenas narra gols, mas cria bordões que se tornaram parte do vocabulário do torcedor. “O gol é o momento sublime”, repete, ou ainda “Papai do Céu no comando”. Trilhas sonoras de conquistas e derrotas que atravessaram rádios de pilha, transmissões em AM, FM e streaming. O mundo mudou, mas a essência permaneceu.

Haroldo também ajudou a consolidar a Rádio Grenal, emissora que nasceu pequena e se tornou referência nacional ao dedicar sua programação exclusivamente ao futebol. “Eu pensei comigo e disse para a Marjana Vargas: eu vou encerrar minha carreira aqui dentro da Rádio Grenal.” Hoje, a rádio é símbolo da paixão gaúcha pelo esporte, e Haroldo é sua voz mais emblemática.

Mesmo indo  para os 200 clássicos narrados, Haroldo ainda sonha. “O que falta para mim é um Grenal de 5×5. Seria fantástico, para matar do coração a gauchada toda, no bom sentido.” E revela um desejo que mistura ousadia e poesia: “Morrer narrando um Grenal, na hora do gol. O grito de gol e tchau, minha gente.” Mas por enquanto, ele segue firme, já olhando para o próximo desafio. O Grenal 201 está logo ali, e Haroldo continua pronto para transformar mais 90 minutos em eternidade.

Em um estado dividido entre azul e vermelho, Haroldo conquistou algo raro: respeito dos dois lados. “Aqui, nem Inter, nem Grêmio. Mas os dois, amando profundamente, para poder realizar um bom trabalho.” Mineiro de nascimento, torcedor do Corinthians fora do Sul, fez da neutralidade um compromisso profissional. Ele não narra para uma torcida. Ele narra para a emoção.

Entre tantas memórias, guarda momentos que se tornaram parte da história do clássico. Do lado azul, recorda o gol de André Catimba, em 1977, no Olímpico: “Ele tentou dar uma cambalhota, mas estava muito doido, e caiu de barriga no chão. Esse momento foi importante e hilário.” Do lado colorado, cita o gol de Falcão, tabelando com Escurinho, e o gol de Fernandão, símbolo eterno da camisa nove. “Cada lance narrado é um pedaço da minha vida.”

Haroldo também sonha em deixar um legado para sua filha, Joaquina, de apenas oito anos. “Ela diz: pai, eu quero narrar futebol igual ao senhor. Se ela quiser, eu ensino tudo aquilo que eu sei. Seria fantástico a Joaquina substituindo o pai dela, narrando futebol.” O sonho da filha é narrar. O sonho do pai é vê-la feliz. Se for no microfone, será continuidade. Se for em outro caminho, será orgulho do mesmo jeito.

Chegar ao Grenal 200 é mais do que atingir uma marca. É transformar trabalho em patrimônio afetivo. É ser trilha sonora da memória coletiva de um povo. Haroldo de Souza não narrou apenas partidas. Ele narrou sentimentos. Deu voz à paixão que nasce na favela, atravessa a mansão, entra no rádio do táxi, na cozinha da casa simples, na sala de estar do apartamento de luxo. Enquanto houver Grenal, haverá tensão no ar. Enquanto houver emoção, haverá alguém para gritar gol. E enquanto houver microfone, a história lembrará da voz que transforma cada clássico em eternidade.

E que venham muitos outros Grenais, porque a partir deste feito, cada novo clássico já é um recorde. (por Gisele Flores)

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