Domingo, 19 de abril de 2026
Por Dana Badra | 19 de abril de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Ironia ou não, o Dia dos Povos Indígenas e o aniversário do “descobrimento” do Brasil são celebrados com três dias de diferença: 19 e 22 de abril, respectivamente. Um comemora 526 anos e o outro remonta a milhares de anos de história em Pindorama — como era chamada nossa terra por seus povos originários antes da chegada dos novos habitantes europeus.
Apesar de ter se tornado território português em 1500, até duzentos anos atrás o português mal era falado no Brasil. Para se comunicar efetivamente, os colonizadores ou outros estrangeiros que aqui chegavam precisavam aprender a Língua Geral – como era chamada a língua de base indígena amplamente falada pelo nosso território, hoje conhecida como tupi moderno. Mas a mudança não foi orgânica.
Marquês do Pombal, ministro e secretário de Estado do Rei de Portugal, em seu plano de fazer o Brasil viver e falar à moda da Coroa portuguesa, formula a Lei do Diretório, que, entre outras previsões, proíbe o uso da Língua Geral e institui como língua oficial — e obrigatória — a “língua do príncipe”: o português.
“Para desterrar este pernicioso abuso [o uso da língua geral pelos europeus] será um dos principais cuidados dos diretores estabelecer nas suas respectivas povoações o uso da língua portuguesa, não consentindo por modo algum que os meninos e meninas que pertencem às escolas e todos aqueles índios que forem capazes de instrução nessas matérias usem a língua própria das suas nações, ou da chamada geral, mas unicamente a portuguesa, na forma que sua Majestade tem recomendado em repetidas ordens, que até agora não observaram, com total ruína espiritual e temporal do Estado”, dizia um trecho da lei de 1757.
A imposição deu certo: passamos a falar português, mas a língua que já estava aqui não desapareceu. Fora do papel e longe das ordens da Coroa, seguiu viva no cotidiano — nas casas, nas relações, nas regiões onde o Estado pouco alcançava. Quando o português enfim se impôs, esbarrou em uma língua em uso que, em vez de se apagar, se incorporou, já ajustada à terra que nomeava. Pela força, o tupi deixou de ser a língua dominante, mas passou a habitar o nosso português nas palavras que atravessaram o tempo guardando o que já estava aqui: um povo, uma história, um Brasil que não começou com a chegada de Cabral.
A peteca que tu jogavas quando guri. A pipoca, a tapioca e a paçoca de amendoim. De sobremesa, um açaí. Pra beber, caipira de caju ou de abacaxi?
A fauna parece não ter sido traduzida para o português: a capivara, o tucano e a piranha. O siri e o sagui. Tamanduá, sabiá, gambá. Jacaré e tatu. Quero-quero, graxaim, bugio — nunca se traduziu.
O mapa do Rio Grande do Sul é desenhado nessa língua: Piratini, Itaqui e Erechim. Ijuí, Imbé, Sapiranga, Sapucaia, Gravataí. Guaporé e Tramandaí. O estado inteiro fala tupi!
Viajando estado afora, segue a história. Vai pousar em Guarulhos ou Congonhas? Desce para o litoral — Ubatuba ou Guarujá. São Paulo não era o que esperava, vai para Ipanema, Paraty ou Paquetá. Niterói, e depois a viagem se constrói. O Maracanã fica para amanhã.
A cada parada, em cada nome, a língua reaparece. Sem perceber, falamos — e o tupi segue vivo.
A lei impôs, mas a herança venceu. Falamos português, mas não deixamos de falar tupi. Muito se apagou, sim, mas não sem deixar sua presença marcada no nosso dia a dia — no que falamos, em como nomeamos o mundo nessa terra que já tinha nome.
Por Dana Badra.
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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