Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 6 de julho de 2015
A imprensa internacional deu amplo destaque, no domingo, às mais recentes revelações do site WikiLeaks sobre detalhes da espionagem praticada entre 2010 e 2012 contra diversos integrantes do governo brasileiro pela NSA (Agência de Segurança norte-americana, na sigla em inglês).
Nos Estados Unidos, a agência de notícias Bloomberg ressaltou que “altas autoridades de Brasília foram monitoradas por Washington, menos de uma semana após a visita da presidenta Dilma Rousseff à Casa Branca justamente para reparar relações bilaterais abaladas por denúncias anteriores”.
O jornal USA Today e a rede britânica BBC, por sua vez, frisaram os aspectos econômicos da “campanha de espionagem” contra o Brasil. Já o site da CNN repercutiu a atitude de Dilma em tratar o incidente como uma página a ser superada nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Alemanha e França já convocaram os embaixadores norte-americanos para que dêem explicações sobre as novas revelações do WikiLeaks. Em Berlim, a primeira-minista Angela Merkel avisou que espera resposta rápida de Washington. De Paris, o presidente François Hollande também telefonou para Barack Obama, cobrando posição da Casa Branca.
Le Monde
O jornal francês Le Monde publicou artigo sobre “a falta de estima dos brasileiros sobre os seus governantes”. Em suplemento especial, o diário citou as duas pesquisas de opinião que, nos últimos três meses, indicaram um desinteresse de grande parte dos cidadãos pelas instituições democráticas.
O primeiro levantamento, realizado no final de março pelo Latin American Public Opinion Project, apontou que 47,6% dos brasileiros apoiariam a ideia de golpe militar “em caso de forte corrupção”. As opiniões foram coletadas em um momento conturbado, com manifestações de rua contra escândalos como o da Petrobras.
Dentre os principais tópicos do Le Monde está o fato de o Brasil apresentar, na comparação com outros países da América Latina abrangidos pela pesquisa, um dos índices mais elevados de rejeição ao governo, ultrapassado apenas por Paraguai e Peru, mediante uma pequena margem. A parcela de adeptos declarados da solução armada variava em torno de 38% antes de 2012.
“Um aspecto inquietante é que o levantamento mais recente foi realizado em 2014, antes mesmo do escândalo na estatal”, ressalta o jornal francês.
Já a outra pesquisa mencionada pelo Le Monde foi feita pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) em abril e divulgada no mês seguinte, estimando que 60% dos brasileiros estejam insatisfeitos com a democracia.
“Os dados também confirmam a baixa popularidade de seus representantes”, prossegue o periódico, citando ainda que 77% disseram não confiar na chefe do Executivo. O quadro não se mostra muito diferente no que se refere a governadores, senadores e deputados, com desaprovação média de 80% .
“Em nenhum outro momento pós-ditadura militar [1964-1985], os partidos políticos encontraram rejeição tão grande como a atual, quando a confiança no governo não chega ao nível de 10%.”
Para o Le Monde, as crises política, econômica e ética no Brasil “acentuaram esse desamor”. Alerta, no entanto, que os problemas do País parecem ainda mais profundos. “Desde a redemocratização, o brasileiro tem demonstrado desconfiança maior que a verificada no âmbito das nações próximas, no que diz respeito à coisa pública”, relatou o jornalista Nicolas Bourcier, que atua como correspondente do periódico parisiense no Rio de Janeiro.
O artigo do Le Monde apontou uma contradição nas respostas brasileiras: “Conforme estudos comparativos, o apoio à democracia costuma ser maior em países com um passado autoritário.” Ressalva, no entanto, que a Comissão Nacional da Verdade só foi instalada 27 anos após a ditadura, sem admissão de culpa pelos militares. “As causas da apatia estariam, em parte, no sistema político “fechado às demandas sociais”. (Marcello Campos com agências)
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