Terça-feira, 28 de julho de 2026
Por Tatiane Dias Scotta | 28 de julho de 2026
Existe uma diferença enorme entre conhecer alguém e acreditar que já sabe tudo sobre essa pessoa
Foto: DivulgaçãoEsta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
O casamento começa a envelhecer no dia em que deixamos de surpreender quem já conhece todos os nossos defeitos. Talvez seja essa a frase que ninguém espera ler em uma crônica sobre desejo. Mas é justamente nela que mora um dos maiores segredos dos relacionamentos duradouros.
Porque quase ninguém acorda pensando: “Hoje vou deixar de desejar quem eu amo”. Isso acontece devagar. Entre e-mails, filhos, reuniões, roupas para lavar e a pergunta automática do fim da tarde: “Você comprou o pão?”
O problema nunca foi a rotina. Foi permitir que ela transformasse o outro em paisagem. É curioso como sabemos exatamente onde o parceiro deixa a chave, qual é o lado da cama em que dorme e até como aperta a embalagem do pão. Mas, às vezes, já não sabemos mais o que tem feito seus olhos brilharem.
Existe uma diferença enorme entre conhecer alguém e acreditar que já sabe tudo sobre essa pessoa. É aí que nasce a inteligência erótica. Apesar do nome, ela quase nunca começa no quarto. Começa na cozinha.
Enquanto um seca a louça, o outro passa por trás apenas para deixar um beijo demorado nas costas.
Começa quando alguém está contando, cheio de entusiasmo, como foi a reunião do trabalho, e o outro interrompe a história com um beijo inesperado, só porque aquele sorriso continua bonito de ver.
Começa quando um café aparece sem ter sido pedido. Quando um bilhete é escondido dentro da mochila. Quando um perfume é escolhido sem existir uma ocasião especial. Quando um elogio chega num dia qualquer, sem esperar aniversário, viagem ou Dia dos Namorados.
São gestos tão pequenos que quase passam despercebidos. Mas não passam pelo coração.
Os estudos sobre relacionamentos mostram que o desejo não sobrevive apenas pela proximidade. Ele também precisa de admiração, curiosidade e novidade. O cérebro humano responde positivamente quando continua encontrando significado, surpresa e conexão na pessoa que está ao seu lado.
Talvez, por isso, alguns casais façam reservas nos restaurantes mais sofisticados e passem o jantar inteiro olhando para o celular. Enquanto outros dividem um pastel na feira, riem da garoa inesperada e voltam para casa de mãos dadas como dois adolescentes.
O endereço nunca foi o segredo. O encontro, sim. Inteligência erótica não significa viver em permanente clima de romance, nem transformar todos os dias em uma cena de cinema. Significa impedir que a pessoa que você ama se torne invisível.
É continuar olhando para ela com interesse, mesmo depois de conhecer suas manias, seus defeitos e até aquela estranha habilidade de nunca recolocar a tampa da pasta de dente no lugar. Porque o desejo não vive de perfeição. Vive de presença.
Relacionamentos não adoecem apenas pela falta de tempo. Adoecem quando a curiosidade cede lugar à certeza, quando a admiração perde espaço para a pressa e quando deixamos de enxergar a pessoa que continua crescendo bem diante dos nossos olhos.
No fim das contas, talvez inteligência erótica seja apenas um nome sofisticado para algo profundamente humano: fazer o outro sentir que ainda é visto. Porque existem gestos que quase não fazem barulho.
Um café preparado antes de o outro acordar. Uma mensagem enviada sem motivo. Um elogio inesperado. Ou um beijo nas costas… enquanto a água ainda escorre pela pia.
E, às vezes, é justamente ali, entre a espuma do detergente e a louça do jantar, que o amor encontra uma nova maneira de dizer: “Eu ainda escolho você mesmo com todos os defeitos”. “Vamos nos surpreender juntos?”
Até a próxima consulta.
* Tatiane Dias Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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