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Saúde Internações por causa de surto psicótico ligado à maconha cresce 30 vezes em Portugal

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Polícia americana suspeitou do odor e encontrou drogas no carro e na casa da acusada. (Foto: Reprodução)

Em 15 anos, as internações por surtos psicóticos ou esquizofrenia associadas ao consumo de maconha aumentaram quase 30 vezes em hospitais públicos de Portugal, revela estudo publicado na revista científica International Journal of Methods in Psychiatric Research.

Foram quase 600 pessoas hospitalizadas por ano, a maioria homens (90%), com idade média de 30 anos. Os pesquisadores, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, analisaram 3.233 internações ocorridas entre 2000 e 2015.

No período, as hospitalizações por doenças psicóticas associada ao uso de Cannabis pularam de 20 para 588 hospitalizações —de 0,87% do total em 2000 para 10,60% em 2015. O custo médio de cada episódio foi de € 3.500 (R$ 15,8 mil). No Brasil, não há estudo semelhante.

Para os pesquisadores, há duas hipóteses para o aumento: houve mais registros do uso de maconha como diagnóstico secundário (ou seja, ao receber um paciente em surto psicótico, o médico passou a perguntar mais se ele era ou não usuário de maconha) e pode ter havido uma mudança nos padrões de consumo (as pessoas passaram a consumir mais a droga).

Mesmo ilegal para fins recreativos na maior parte do mundo, a Cannabis é uma das drogas recreativas mais comumente usadas e nos últimos anos tem aumentado a sua utilização para fins medicinais. Pelo menos 40 países já a legalizaram para essa finalidade, inclusive o Brasil, que aprovou novas regras no início deste mês.

As substâncias mais conhecidas são o canabidiol (que não dá barato), e o THC (delta 9-tetrahidrocanabinol), que é psicoativo. Segundo os autores do estudo, outros países, como a França e os Estados Unidos, já relataram que o uso recreativo de Cannabis está ligado a um aumento nas taxas de utilização de serviços hospitalares e de emergência por surtos psicóticos.

Em Portugal, a propriedade e o consumo de Cannabis e outras drogas foram descriminalizados em 2001. Só é considerado crime se a pessoa possuir mais de dez doses da droga.

“Nesses tempos em que muitos países estão considerando a legalização da Cannabis para consumo recreativo, a pesquisa sobre o papel dessa droga na doença psicótica surge como uma ferramenta importante para entender o seu verdadeiro impacto em termos de saúde pública e mental”, escreveram os autores.

Embora seja difícil estabelecer um nexo de causalidade direto entre o uso de Cannabis e as doenças psicóticas, um grande número de estudos observacionais encontrou uma forte associação entre as duas ocorrências. Em março deste ano, um estudo multicêntrico publicado na revista científica The Lancet demonstrou o aumento da prevalência de pessoas que tiveram o primeiro surto psicótico relacionado ao consumo de maconha.

O trabalho envolveu 901 pacientes de 11 instituições na Europa e uma no Brasil (USP) e reforça que o aumento do número de surtos está relacionado a uma concentração de THC superior a 10%.

Em Amsterdã e Londres, o aumento da prevalência de surtos nessas circunstâncias foi de 50% e 30%, respectivamente. Só para efeito comparativo, nos produtos à base de Cannabis para fins medicinais aprovados no Brasil, a concentração de THC começa a partir de 0,2%.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor titular da Unifesp e diretor da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, o estudo português e os outros artigos recentes reforçam a ideia de que o uso de maconha piora todos os indicadores de saúde mental de jovens.

Ele cita, por exemplo, uma metanálise publicada no Jama (jornal da Associação Médica Americana) em fevereiro deste ano, com 11 estudos que incluíram 23.337 adolescentes usuários de maconha. O trabalho concluiu que houve aumento de depressão na vida adulta (37%), pensamentos suicidas (50%) e um risco de tentativa de suicídio três vezes maior em relação aos jovens não usuários da droga.

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