Sábado, 05 de setembro de 2026
Por Chris Cidade Dias | 5 de setembro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A primeira vez que pensei no monstro do Guaíba foi olhando para o lago, que na minha infância chamávamos de rio, e vendo ondulações diferentes. Acho que eu ainda era estudante do grupo escolar que também mudou de nome, no bairro onde nasci.
Morar perto da água é um privilégio. Uma abertura para histórias escondidas muito além do que se enxerga. E o Guaíba oferece mais uma condição que favorece a fantasia: suas águas avermelhadas, sem que o fundo seja visto nunca, são campo fértil para histórias.
São tantas lendas e conversas que as pessoas eternizam e, de uma forma inconsciente, vão passando de geração em geração, enchendo as salas de fantasia.
Acho que são os avós os grandes responsáveis por isso, pela propagação de histórias. Um pouco pelo tempo, que na memória guarda o que os livros não tiveram tempo de anotar, outro pelo afeto, que faz da oralidade um espaço de encontro.
Foi assim que soube das inúmeras histórias envolvendo a enchente da década de quarenta, do mutirão de plantio do terreno após o aterro, que fez de um descampado o bosque batizado de Parque Marinha do Brasil, da construção do Estádio Beira-Rio, com fotos do então jogador Falcão carregando, simbolicamente, um carrinho de mão com cimento para a obra.
Poucas fotos e muitas palavras. Pouca comprovação e pesquisa, muita memória e acervo pessoal de história.
Fico pensando o que vai ser do futuro sem que a memória possa criar, inventar, ser além do fato. Sem que o novo possa entrar.
O que vai ser de nós sem rodas de fantasia.
Acho que, por isso, tantos grupos de leitura estão se formando e promovendo encontros ao redor de invenções.
Já achou um para você?
Se ainda não, saiba que ainda dá tempo de salvar as histórias e, de quebra, nos salvar junto.

* Chris Cidade Dias, escritora
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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