Sexta-feira, 29 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de março de 2021
Embora especialistas em saúde contestem seu uso, o chamado kit covid tem sido adotado como um protocolo de tratamento precoce contra a covid-19 por parte de municípios brasileiros. Ivermectina e azitromicina, por exemplo, são alguns dos fármacos que fazem parte da combinação de medicamentos usados para a profilaxia ou tratamento precoce da doença, mesmo sem existir comprovação científica sobre os benefícios aos pacientes.
Medicamento usado para tratar infestações de parasitas como piolho e sarna, a ivermectina não tem eficácia comprovada contra a covid-19. As principais autoridades mundiais de saúde continuam ressaltando que não existe tratamento comprovadamente eficaz contra o novo coronavírus, assim como a atualização mais recente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o assunto que também aponta que “não existem estudos conclusivos que comprovem o uso desse medicamento para o tratamento da covid-19, bem como não existem estudos que refutem esse uso”.
Além disso, entidades médicas brasileiras repudiaram o suposto “tratamento precoce” do governo federal contra o coronavírus, que envolve a ivermectina e outros remédios sem eficácia comprovada, como a cloroquina.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) não recomendam o uso de ivermectina para propósitos diferentes daqueles para os quais seu uso está autorizado. A FDA, órgão de vigilância sanitária dos Estados Unidos, esclarece ainda que a ivermectina não foi aprovada para prevenção e tratamento da covid-19 nos Estados Unidos e que as pessoas “não devem tomar qualquer remédio contra a doença a não ser que tenha sido prescrito por um médico e adquirido por fonte legítima”.
Saiba mais sobre o assunto:
1) O que é o kit covid?
De maneira geral, tem sido identificado como ‘kit covid’ uma combinação variável de medicamentos que estão sendo recomendados para a profilaxia ou tratamento precoce da covid-19. Geralmente, esse ‘kit’ inclui dois ou mais medicamentos como hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, vitamina D, vitamina C, entre outros.
2) O kit covid funciona?
Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CCF), não há comprovação científica de que os medicamentos que normalmente compõem o kit covid ofereçam qualquer benefício na prevenção ou tratamento da covid-19.
“Até o momento, todos os estudos publicados que avaliaram a eficácia desses medicamentos, juntos ou combinados, não demonstraram qualquer vantagem no seu uso quando comparados ao tratamento com placebo ou tratamento convencional. Além disso, os pacientes ainda ficam expostos aos riscos associados ao uso desses medicamentos. Em alguns casos, o uso combinado desses medicamentos pode aumentar o risco de efeitos adversos por interação medicamentosa, como é o caso, por exemplo, do uso concomitante da hidroxicloroquina e azitromicina que pode potencializar o risco de danos cardiovasculares”, afirmou a entidade.
Os efeitos adversos associados a esses medicamentos são vários:
Hidroxicloroquina — dores abdominais, diarreia, náusea e vômitos, lesão hepática aguda, miopatia, vertigem, reações extrapiramidais, convulsões (principalmente em pacientes com histórico prévio), taquicardia, prolongamento do intervalo QT, entre vários outros efeitos adversos, sendo os cardiovasculares aqueles que mais suscitam preocupações.
Ivermectina — pode causar diarreia, dor abdominal, anorexia, constipação e vômitos, febre, taquicardia, dor de cabeça, tontura, sonolência, vertigem e tremor, inchaço nos membros (braços, mãos, pernas e pés), hipotensão, além de prurido, coceira e erupções cutâneas.
Nitazoxanida — pode causar náusea, diarreia, vômito e dor abdominal, dor de cabeça, reação alérgica, taquicardia, mudanças na coloração dos olhos, urina e esperma; e, ainda, vermelhidão, coceira e erupções na pele.
Vitamina D — pode causar secura da boca, cefaleia, perda de apetite, náuseas, fadiga, sensação de fraqueza, dor muscular, prurido e perda de peso. O consumo excessivo também pode causar constipação, fraqueza muscular, vômitos, irritabilidade e desidratação. Além disso, o excesso de vitamina D, por períodos prolongados, pode resultar em alterações endócrinas e metabólicas, como proteinúria, disfunção renal, hipertensão, arritmias, piora dos sintomas gastrointestinais, pancreatite, psicose, redução dos níveis de HDL e aumento dos de LDL.
Vitamina C — a administração de altas doses, por tempo prolongado, pode causar escorbuto de rebote, distúrbios digestivos, eritema, cefaleia, aumento da diurese e litíase em pacientes com insuficiência renal e naqueles predispostos à cálculos renais. Além disso, é importante lembrar que todos esses medicamentos apresentam contraindicações e podem alterar os efeitos de outros medicamentos já em uso pelo paciente.
Até o momento o único medicamento aprovado no Brasil para tratamento específico da covid-19, em ambiente hospitalar, é o remdesivir. No entanto, a indicação de uso aprovada é bastante específica, sendo o medicamento indicado apenas para pacientes adultos (com 12 anos ou mais), com mais de 40 kg, que tenham sido diagnosticados com covid-19 associada a pneumonia e com necessidade de suplementação de oxigênio, desde que não estejam em ventilação mecânica ou ventilação com membrana extracorpórea (ECMO).
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