Sexta-feira, 13 de março de 2026
Por Luiz Carlos Sanfelice | 12 de março de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Em 1955 eu fizera exame para a Escola de Cadetes em Porto Alegre (eu queria se militar) mas garoto meio assustado, coloninho ingênuo lá do distante interior, sem ‘jogo de cintura’, medroso e assustado, sem nenhuma segurança e bem bocó, ‘me enrolei’ todo e não fui aprovado. Poderia fazer exame novamente no ano seguinte mas a família não concordou e eu não me impus.
Segui estudando e como conto em outro capítulo, passados em agosto de 1957 vim morar e estudar em Porto Alegre. Nesse ínterim, entre 55 e 57 tive dois colegas de aula com quem muito bem me relacionei e depois, também, fizeram exame e foram aprovados na Escola de Cadetes. Lembro de seus nomes: o João Francisco da Silva Rosnieski e Waine Canto de Souza. Mas perdemos contato e um dia o João Francisco me localizou e foi me visitar na rua Ferreira de Abreu onde eu morava. Fardado de Cadete, vê-lo foi uma alegria só. Saber que ele havia passado e o Waine também e já estarem cursando foi uma satisfação e, também, uma tristeza, pois reacendeu minha vontade de ser militar mas os caminhos já eram outros. Isso foi em fins de 1957 e nunca mais me visitou nem soube mais deles nem contato tivemos mais. Cada um ‘pegou seu rumo’ e a vida seguiu seu curso.
Muitos anos depois lá por volta de meados dos anos 90, passados uns 40 anos, um dia numa reunião de Rotary, encontro outro colega daquela época o Engº Luiz Floriano Alves que me contou saber um pouco da vida do Waine, que chegara a Coronel, já tinha se reformado e estaria morando em algum lugar na Serra (Gramado, Canela, por ali) mas que, ‘meio recluso’ não estava a fim de contato com ninguém. Do João Francisco nada sabia. Mas eu quis saber e fui atrás. Só consegui chegar até sua formatura na Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN). Então postei num canal do Exército a pergunta se alguém o conhecia e podia me informar. Foi aí então com um choque e com tristeza que fiquei sabendo que o João Francisco havia sido assassinado. Meu Deus, como foi isso? Fiquei sabendo que ele era Capitão servindo na Guarnição de Foz do Iguaçu e que por alguma razão um Sargento com uma pistola .45, dentro do Quartel, deu um tiro no peito do João Francisco e o matou. Que esse Sargento imediatamente fugiu com uma viatura e cruzou o rio Paraná e se homiziou no Paraguai e nunca mais foi visto nem apanhado.
…Que coisa, né?… Mesmo tantos anos depois, fiquei chocado com a notícia. Depois de muitas pesquisas e tentativas, consegui localizar a viúva e os filhos com quem falei e que nunca curaram inteiramente o trauma. Disse-me sua viúva que ele foi sepultado em Cachoeira do Sul e que a morte do pai traumatizou de tal modo o filho que tinha 6 anos na época (hoje – 2026 – perto dos 62) ainda chora e se revolta sobre o túmulo do pai.
Que tristeza…
Localizei o Waine, retomamos contato e nos tornamos amigos. Ele morava em Gramado e lá, militarmente reformado, vivia feliz.
Agora, de repente, vejo a notícia no Facebook, recentemente, o anúncio de que morreu. Lamento com tristeza. Ele era um “bom rapaz”. Amigo, franco, sincero, respeitoso e culto. Pelo menos este foi levado naturalmente dentro do que se espera ao nascer, crescer, amadurecer, envelhecer e morrer, diferente da trágica forma que o outro colega (o João Francisco) teve.
Tivemos em comum o forte desejo de “vestir a farda” que eles insistiram e foram em frente e eu fiquei na vida civil. Nunca tive que prestar continência a ninguém, nem ninguém nunca prestou continência a mim. Mas gostaria de que tivesse acontecido. Não vesti a farda, mas quis o destino que dos 3 seja eu o único sobrevivente. Pelo menos até agora. Tenho sério problema de mobilidade, mas se conseguir caminhar novamente, tenho a determinada intenção de ir visitar o túmulo de meu amigo João Francisco, tão covardemente morto e tão prematuramente ceifado desta vida.
* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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