Domingo, 10 de maio de 2026

Porto Alegre

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Colunistas Lembranças que ficaram (66): Um cabrito… e o despertar de uma vida

Compartilhe esta notícia:

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Na primeira metade do mês de julho de 1946 eu completei 7 anos de idade e, segundo dizem, é a idade em que a criança perde a inocência e já tem noção do certo e do errado, da verdade e da mentira, do que “é pecado” e do que não é. Contam, também, as tradições educativas religiosas e disso muito se falava no passado que se nessa idade “se perde” a inocência, também, passa a responder perante Deus, por seus erros.

Talvez a mais impactante dessas histórias é a que contavam (e ainda contam) que o mais relevante sinal do “fim do mundo” (final dos tempos, mesmo – não a chegada em Ushuaia – rsrsrs) e que nos últimos 7 anos antes do final dos tempos, ninguém terá filhos, nenhuma criança nascerá, nenhuma mulher ficará grávida. Talvez tudo seja uma “teoria da conspiração”.

Faço esta explicação para que possam entender o tamanho e o volume da carga de informações que nesse exato momento de minha vida (7 anos) de repente numa viagem de férias vi, ouvi, aprendi, me admirei, me chocou e que de maneira rápida, forte e meio assustadora, comecei a ver a vida como ela é.

Em 1946 nós ainda morávamos em Ijuí, onde meu pai tinha seu negócio. Nenhuma estrada que chegasse ou que saísse de Ijuí, sequer era empedrada. Barro vermelho ou poeira fina como talco se fixava até nos cílios. Calçamento na cidade, só ao redor da praça e nem era paralelepípedo. Era pedra lascada bruta.

Meu Pai tinha uma irmã casada com um dinâmico homem do campo que tinha Serraria e Alambique no Faxinal (Dr. Bozano) e teve oportunidade de fazer um bom negócio de terras aguadas na direção de Santa Rosa, quase na divisa com a Argentina. Ele represou um rio conhecido do Lajeado Grande e a partir dai cavou uma “bica” com 5 metros de largura por 1,20 de profundida que seguia pelo campo até + ou – 1 km onde instalou 2 enormes rodas d’água que “tudo podiam”. Movimentava um Descascador de Arroz, um Engenho de Farinha de Milho, uma Serraria, uma Marcenaria, gerava Luz e Energia para a Residência, construiu 5 casas para as famílias dos empregados, um Escolinha, um enorme Mangueirão com água corrente para engorda de porcos, montou uma enorme “Venda” (tecidos, ferragens, sapatos, remédios, etc,) uma Cancha de Bocha e um Campo de Futebol. Construiu uma Vila onde nada tinha e instalou 4 ou 5 postes com luz. Os Colonos e suas famílias de todo o entorno ficaram felizes e fizeram daquele lugar seu ponto de referência, pois toda região era ainda um ermo distante de tudo, sem estradas, sem recursos, de forma que num raio (imagino) de uns 15 km todo mundo não só vinha se abastecer na Venda como dar como endereço para os parentes na Itália, Alemanha, Polônia e mesmo daqui.

Tem que se considerar que o fim da estrada “geral” terminava em Santa Rosa. Daí tinha que seguir em estradinhas de carroça até Tuparendi. De Tuparendi seguia uma trilha precária em direção ao Rio Uruguai, mas a uns 10 km de Tuparendi saía dessa trilha e entrava noutra à esquerda e andava mais uns 15km para chegar até a Vila que meu tio criou junto ao Lajeado Grande. Viajando a maior parte do tempo por dentro de densa floresta.

Pois em meados desse mês de julho de 1946, meu pai resolveu ir visitar a irmã nesse distante cafundó. Ele tinha na ocasião um automóvel Okland 1929 (tipo Ford 29) e um dia, depois do almoço embarcou ele, minha mãe, minha irmã, eu e um cabrito de uns 8 meses de idade. MEU DEUS DO CÉU…!!!

Passamos por Santo Ângelo (e nem eu nem a irmã conseguíamos fazer o cabrito parar quieto) passamos Giruá e chegamos noite fechada em Santa Rosa e, aí então o suplicio realmente e se instalou: meu Pai se perdeu nas estradinhas, choveu, atolamos, desatolamos, e o cabrito não parava… quase clareando o dia, por fim, chegamos na “Vila” do meu tio. Dois dias depois fiquei feliz quando comemos um churrasco com carne de cabrito.

Foram nesses dias ali vividos que comecei a ver e entender a vida. Até então fora criado em pátio, sem poder brincar na rua “com a molecada” e nada sabia. Nem palavrão. Mas então vi um cachaço cobrindo uma porca e vi que o “pinto” do porco é uma púa mas não sabia o que eles estavam fazendo, nem por que. Vi um galo cobrindo uma galinha, um pato cobrindo uma pata, um touro cobrindo uma vaca, os trabalhadores da serraria, do engenho e os caras jogando bocha dizendo ou xingando nomes e palavras que eu não conhecia. E eu ia perguntando e eles sempre rindo me contavam no linguajar rude de pessoas iletradas. Foi onde ouvi chamar alguém de “o seu filho da (abreviação de prostituta) e não sabia o que era… Perguntei… riram e me explicaram. Não entendi nada.

Voltei daquelas férias com meu vocabulário bem “enriquecido” e sabendo por que um casal dorme junto. O curioso é que não foi em casa, não foi na Escola e nem na cidade, mas lá no fundo da mais escondida grota no meio do nada, que fui aprender tudo isso e que existia um mundo além do quintal da minha casa.

– Nota: aviso aos meus leitores que com as “trapalhadas” de uma gripe e datas pascais, o artigo do dia 2 saiu dia 4 (pag.62) e do dia 9, saiu dia 10 (pag. 79).

* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Deixe seu comentário

Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!

0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Pacto pela Criança: Câmara de Porto Alegre lança iniciativa para proteger crianças vítimas de violência
Porto Alegre acelera tramitação do novo Plano Diretor
Pode te interessar
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x