Eu digo, mas alguém disse antes de mim:
“Vamos entender por que o RS culturalmente não tem nada a ver com o Brasil, e por que isso não é ofensa – é história.”
A imagem dos três gaúchos, lado a lado, montados em cavalos crioulos no meio do pampa, diz mais do que muitos livros didáticos. Um segura a bandeira do Rio Grande do Sul, outro a do Uruguai, outro a da Argentina. As roupas mudam nos detalhes, os lenços mudam de cor, mas o corpo, o olhar, a postura e o chão sob os cascos são os mesmos. E isso não é coincidência. É processo histórico.
Quando se diz que o Rio Grande do Sul “não tem nada a ver com o Brasil”, não se está negando a brasilidade jurídica do estado. Está se falando de formação cultural, de matriz civilizatória, de origem histórica profunda. E, nesse ponto, o RS olha muito mais para o Prata do que para o Trópico. O Rio Grande do Sul não nasceu brasileiro. Essa é a primeira chave para entender tudo. Enquanto grande parte do Brasil foi moldada pelo litoral, pelo açúcar, pela escravidão em larga escala e pela lógica colonial portuguesa, o sul do continente foi moldado por disputa de fronteira, guerra, gado solto e território aberto.
O Rio Grande foi terra em disputa entre Portugal e Espanha. Antes de ser brasileiro, foi espanhol em cultura, castelhano em linguagem cotidiana e platino em modo de vida. A fronteira nunca foi muro — sempre foi corredor. A população do sul do Brasil se formou a partir do mesmo tronco humano que formou os gaúchos do Uruguai e da Argentina: o gaúcho pampeano, homem do cavalo, do campo aberto e do gado xucro. O pampa não reconhece fronteiras, ele é uma unidade geográfica e cultural que ignora linhas políticas e começa no sul do Brasil, atravessa o Uruguai e se espalha pela Argentina, com uma vegetação, um clima, um relevo e uma mesma lógica de sobrevivência.
Onde o ambiente é igual, a cultura tende a ser parecida e é por isso que o chimarrão é comum aos três países, o cavalo crioulo é símbolo regional, a bombacha existe dos três lados da fronteira e a música, a milonga, a payada e o canto narrativo se repetem. Isso não é influência recente. É origem compartilhada. É a identidade platina do gaúcho rio-grandense que não se formou olhando para o Norte do Brasil. Ele se formou olhando para o Sul. Para o Uruguai. Para a Argentina. Para o Prata. O próprio ideal republicano gaúcho bebeu mais das fontes do Prata do que do Rio de Janeiro imperial. O RS não é tropical, é subtropical e temperado e o clima cotidiano molda a mentalidade. O Rio Grande do Sul vive frio, geada, vento minuano e inverno rigoroso. Isso altera arquitetura, vestimenta, alimentação, ritmo de vida e até relações sociais”.
O problema é que o Brasil costuma se pensar como homogêneo. E o RS nunca coube bem nessa narrativa. Quando o gaúcho afirma sua identidade, muitos interpretam como arrogância ou separatismo, mas na maioria das vezes é apenas consciência histórica. É inegável que lá no fundo, existe um sentimento separatista. Tem bandeira e tem hino – todos tem – mas o gaúcho veste e agita sua bandeira e sabe de cor seu hino. Até já fomos um País, uma República.
“No fim das contas…o Rio Grande do Sul não tem nada a ver com o Brasil no sentido cultural profundo, porque nasceu de outra matriz e isso não é problema. É riqueza. Esse sentimento de tradição, história, liberdade e campo aberto é tão profundo que mesmo com a vinda e ocupação de alemães, italianos e outras etnias, esse sentimento longe de se desvanecer, manteve-se e recrudesceu ao ponto que na colônia ocupada mais por estrangeiros e seus descendentes, Ijuí, onde se fala 19 línguas, foi que em 19 de outubro de 1943 – muito antes de Paixão Cortes e seus Colegas do Julinho fundarem o CTG 35, em 1948 – 5 anos antes o Capitão Laureano Medeiros no meio de alemães. italianos, russos e poloneses que com surpreendente amor absorveram o culto as histórias e tradições, funda o mais antigo Clube para cultuar as tradições e músicas do Rio Grande o que na prática foi o primeiro CTG, curiosamente não foi em uma cidade da campanha, Santiago, Alegrete, Uruguaiana ou Bagé. Foi em Ijuí e esse Centro foi reconhecido como precursor do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Hoje todas as cidades do RS tem seu CTG e praticamente todos Estados Brasileiros e, curiosamente, até em alguns países. E o chimarrão e o churrasco no espeto, seguiu junto…Quem sai daqui, depois ‘morre’ de saudades… e o culto às tradições é tão sincero e forte que não rara vez o povo que está no Salão do Evento e o intérprete que está no Palco, marejam os olhos ou até choram pela emoção que sentem.
* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com
