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Acontece Literatura 60+: romance rompe estereótipos e leva protagonistas maduros ao centro da narrativa na Feira do Livro

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Durante décadas, a literatura romântica reservou seus grandes amores para personagens jovens. Das heroínas clássicas aos protagonistas contemporâneos, a paixão quase sempre foi retratada como um privilégio da juventude. Aos personagens mais velhos, normalmente cabiam papéis secundários: pais, avós, conselheiros ou testemunhas da felicidade alheia. Aos poucos, porém, esse cenário começa a mudar. E é justamente nessa transformação que se insere Amores Tardios – Livro I: Nina & Noah, obra da psicóloga e escritora Glaci Faingluz que terá sessão de autógrafos no próximo dia 8 de novembro, às 15h, na Banca dos Autores Independentes da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre.

O romance coloca no centro da narrativa dois personagens com mais de 60 anos e parte de uma pergunta pouco explorada pela ficção: o que acontece quando o amor surge depois das grandes perdas da vida?

A protagonista, Nina, tem 64 anos. Após enfrentar o luto e um longo período de recolhimento, decide embarcar em um cruzeiro pelo Atlântico em busca de novos horizontes. Durante a viagem conhece Noah, empresário viúvo que também tenta reconstruir sua rotina e reencontrar sentido após a perda da companheira. Entre conversas, descobertas e aproximações, os dois passam a enxergar a maturidade não como uma etapa de encerramentos, mas como um território de possibilidades.

O ponto de partida pode parecer simples, mas dialoga com uma realidade cada vez mais presente na sociedade brasileira. O aumento da expectativa de vida e a busca por relacionamentos na maturidade têm alterado antigas percepções sobre envelhecimento. Pessoas acima dos 60 anos permanecem profissionalmente ativas por mais tempo, ampliam seus círculos sociais, viajam, iniciam novos projetos e, cada vez mais, constroem novas relações afetivas.

Nesse contexto, a literatura começa a acompanhar uma mudança que a sociedade já experimenta. Se durante muito tempo o envelhecimento esteve associado apenas à perda, à doença ou à nostalgia, novos autores têm buscado apresentar personagens maduros como protagonistas de histórias complexas, capazes de amar, errar, desejar e recomeçar.

Em Amores Tardios, o afeto não aparece como fantasia idealizada. A narrativa se constrói a partir de temas universais, como luto, solidão, coragem e reconstrução emocional. São questões que atravessam todas as idades, mas que assumem contornos particulares quando vividas por pessoas que já acumularam décadas de experiências, conquistas e cicatrizes.

A própria autora enxerga esse protagonismo como uma necessidade ainda pouco contemplada pelo mercado editorial.

“Quase ninguém escreve sobre amor, coragem, ressignificação e recomeços depois dos 60 anos. Pessoas maduras precisam ser vistas não como coadjuvantes, mas como protagonistas de suas próprias histórias”, afirma.

A observação encontra eco em um debate cada vez mais presente entre críticos literários e estudiosos da cultura. A representação do envelhecimento ainda costuma oscilar entre dois extremos: a fragilidade absoluta ou a idealização. Histórias que apresentam personagens maduros em sua complexidade humana continuam relativamente raras, especialmente dentro do gênero romântico.

A trajetória profissional de Glaci Faingluz ajuda a explicar esse olhar. Formada em Psicologia pela PUCRS, com especialização em Psicoterapia Psicanalítica de Adultos, ela dedicou quatro décadas à clínica. Ao longo desses anos, acompanhou processos de transformação, perdas, reconstruções e novos começos. Quando decidiu encerrar a carreira clínica, encontrou na literatura uma forma diferente de continuar explorando os conflitos e as emoções humanas.

A estreia como romancista surge justamente da observação dessas trajetórias que muitas vezes ficam invisíveis na ficção tradicional. Em vez de abordar a velhice como conclusão da jornada, a autora propõe enxergá-la como uma fase de continuidade, marcada por desafios, mas também por escolhas, descobertas e afetos.

E a história não termina com Nina e Noah. Glaci já trabalha na sequência da série. Amores Tardios – Livro II: Bella e Matteo tem lançamento previsto para o primeiro semestre de 2027 e dará continuidade à proposta de retratar personagens maduros vivendo experiências amorosas e processos de reconstrução emocional.

Na Feira do Livro de Porto Alegre, entre milhares de títulos e centenas de autores, a obra chama atenção por ocupar um espaço ainda pouco explorado na literatura brasileira: o da maturidade como protagonista. Em um tempo em que a longevidade redefine hábitos, relações e projetos de vida, histórias como a de Nina e Noah lembram que o amor talvez seja uma das poucas experiências humanas que não reconhecem idade. Afinal, algumas jornadas começam justamente quando muitos imaginam que elas já terminaram.(por Gisele Flores -gisele@pampa.com.br)

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