Quarta-feira, 01 de abril de 2026
Por Redação O Sul | 15 de junho de 2015
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou ao PT, no 5º Congresso, como se os fatos e os atos pudessem ser apagados por gestos de vontade ou por simples obra da conveniência. Na sexta-feira, em Salvador (BA), citou a campanha eleitoral de 1989 para lembrar aquele tempo em que “a gente vendia camiseta e adesivo de carro”. O intuito era incentivar os militantes a passear no passado, quando a legenda, segundo ele, era vivida “com mais intensidade que hoje”.
O convite de retorno às origens inclui a ideia de levar os petistas a batalharem por doações individuais de dinheiro, a fim de “resolver parte dos problemas” do partido e providenciar uma inflexão à esquerda. O que seria isso? Uma readaptação da política de alianças, deixando agora de lado siglas do centro à direita com os quais o PT se aliou para governar. Mas não foi a direção do partido que em 2002 resolveu adernar ao centro-direita justamente com a meta de parar de perder eleições?
Mais: uma vez no poder, aliou-se ao que de mais conservador existia sob o argumento de que não havia outra maneira de governar. Nada contra, uma escolha ditada pelas circunstâncias. Mas é de se conferir o que acha disso a militância que na época não foi consultada a respeito. Se o PT optou por um caminho para ganhar, como espera vencer voltando à trilha que o levou à derrota por três eleições?
Pode-se argumentar que os tempos são outros. Perfeito. Mas a mudança foi para todos. Lula também mudou. E a percepção que se tem dele também. Hoje já não conta com a aura do mito intocável. É um político investigado por suspeita de praticar tráfico de influência em favor da construtora Odebrecht. Contra ele existem outras questões, a respeito das quais deve explicações não esclarecidas. Por exemplo, as doações daquela empreiteira ao Instituto Lula (a título de quê?) e uma reunião com o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa em 2006, no Palácio do Planalto, para falar sobre a estatal.
Essas e outras perguntas até então não haviam sido feitas a Lula em campanhas presidenciais. Mas, em 2018, certamente serão postas e precisarão ser respondidas por ele se porventura vier a se candidatar. Nessa hipótese, será uma reconciliação de construção difícil. Lula era o operário que havia sido aceito no paraíso. Uma vez lá, abusou, foi malvisto e por isso ensaia uma volta aos seus. Estes, por sua vez, agora têm o direito de desconfiar dessa nova carta de intenções.
Dora Kramer/AE
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