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Saúde Magreza extrema na mídia afeta a percepção que as mulheres têm em relação aos seus próprios corpos

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O padrão de beleza super magro voltou à tona e ganhou dimensão extrema. (Foto: Reprodução)

As clavículas salientes e os braços finos das celebridades no tapete vermelho do Oscar deste ano chamaram tanta atenção quanto os filmes indicados. O padrão de beleza super magro voltou à tona e ganhou dimensão extrema, em meio ao avanço do conservadorismo e da popularização das canetas emagrecedoras.

Esse fenômeno é causado por um conjunto de fatores políticos e tecnológicos e não é novidade, afirma o publicitário Rodrigo Sanches, doutor em psicologia pela USP e pesquisador da imagem feminina na mídia. “Não é de hoje que a estética da magreza é associada à beleza, mas esse corpo foi sendo emagrecido nas últimas décadas, e as pessoas viram que há recursos rápidos para emagrecer.”

Nos anos 1990 e 2000, o corpo magro objeto de desejo fazia parte da estética que ficou conhecida como “heroin chic”.

“Esse modelo passa a ser apresentado mais uma vez como sinônimo de beleza e sucesso”, diz Mariana Kehl, psicóloga clínica e professora de psicologia da PUC-SP. “Toda vez que a cultura estreita demais essa definição, ela amplia o sofrimento. Essa pressão cultural é difusa, repetitiva e muito bem embalada.”

As mulheres são mais afetadas por um contexto histórico, completa Kehl. “O corpo feminino é historicamente mais vigiado, avaliado e moralizado. A mulher aprende precocemente que a aparência não é só uma dimensão da vida, é uma espécie de critério de valor social.”

Rodrigo Sanches ressalta que os corpos que desfilam no tapete vermelho são produzidos esteticamente para aquele momento, funcionando como uma vitrine, e é importante fazer essa distinção. “Essa imagem é vendida como algo natural, como se todas as mulheres tivessem recursos financeiros e tempo para viver da imagem”, diz.

Essa construção atende ao que ele chama de “indústria da dieta, beleza e boa forma”, empenhada em promover também procedimentos estéticos e cirúrgicos.

Essa magreza exagerada das celebridades ganhou até nome: “Hollyweird”, junção de Hollywood e “weird” (estranho, em inglês). A estranheza gera discussão, afirma o pesquisador. Os padrões são quase sempre inatingíveis: quanto mais magro, mais difícil de atingir, e quem chega lá ganha um atestado de sucesso, diz Sanches. Isso cria uma distinção social, que separa quem tem recursos para alcançar tal ideal.

O magro ao etremo também voltou às passarelas. Dos 7.817 looks apresentados em 182 desfiles na temporada outono/inverno 2026, 97,6% eram dos tamanhos 0 a 4 nos Estados Unidos (similar às peças que vão do 34 ao 38 no Brasil), de acordo com o relatório de inclusividade de tamanhos da Vogue Business. Não por acaso, marcas como Zara e Marks & Spencer foram proibidas de veicular anúncios com modelos muito magras.

Segundo Vanessa Hikichi, especialista em tendências da consultoria WGSN, a ascensão do Ozempic e medicamentos similares está transformando a nossa relação com própria imagem corporal e a percepção de magreza. Para ela, a indústria da moda reflete essa tendência em resposta ao desejo do consumidor por padrões mais medicalizados.

Em contraste, o movimento “body positive”, que celebra corpos diversos, tem perdido força. Para Hikichi, isso aconteceu porque as iniciativas acabaram absorvidas pelo mainstream e esvaziadas por estratégias de marketing, sem mudanças estruturais profundas.

As mulheres são submetidas a estímulos que promovem padrões de beleza irreais a todo o momento, no shopping, na publicidade, no cinema e na TV, afirma Sanchez. “Automaticamente, vou querer ser magra. A partir do momento em que não estou de acordo com um padrão que valoriza a magreza, vou ser uma pessoa frustrada.” As redes sociais, afirmam os especialistas, amplificam essa comparação.

Modas vêm e vão e fazem com que algo antes considerado feio passe a ser visto como atraente. “Tendências são moldadas por uma combinação de mercado, mídia e tecnologia”, afirma Hikichi, da WGSN. “A imagem tem a força de moldar a forma como nós pensamos o belo e o feio. Beleza é uma construção social histórica, política e econômica”, completa Sanches.

Tentar acompanhar esses padrões adoece mulheres. A exposição repetida a corpos inatingíveis altera a forma como a mulher se enxerga e provoca insatisfação com o próprio corpo, piorando o humor e a autoestima, diz Mariana Kehl. “A mulher está carregando um peso que não é dela, é da cultura.”

A internalização do ideal da magreza vira um problema quando a mulher passa a organizar a vida em torno do peso e da aparência, acrescenta a psicóloga. Quando ela consegue olhar para essa imagem e entender que se trata de uma construção, o efeito da comparação diminui, diz a psicóloga.

Com a popularização das canetas emagrecedoras, alcançar esse padrão ficou mais fácil e bem mais rápido.

Karen de Marca, vice-presidente da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), alerta para os riscos do uso desses medicamentos por pessoas que não preenchem os critérios do tratamento ou sem orientação médica. “A pessoa que não quer de jeito nenhum ganhar peso passa a utilizar a medicação porque vê resultado naquelas que utilizam.” Ela afirma ainda que observa, em meio à onda de magreza, mais pacientes adquirindo distúrbios alimentares. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

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