Quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 31 de outubro de 2017
O paciente, ainda na barriga da mãe, entrou em foco na tela plana de uma escura sala de cirurgias. Dedos das mãos, dos pés, as solas dos pés – todos bonitinhos, perfeitamente formados. Mas a parte inferior das costas não é assim. A pele lisa apresenta uma abertura que não deveria estar lá, um orifício oval que expôs a borda branca de um osso e os nervos da medula espinhal.
“Bom, agora é pra valer”, disse o Dr. Michael A. Belfort, diretor da obstetrícia e ginecologia na Faculdade de Medicina de Baylor e obstetra e ginecologista-chefe do Hospital Infantil do Texas. O feto, com 24 semanas e dois dias de idade e menos de um quilo, estava prestes a passar por uma cirurgia. Ele tinha uma forma grave de espinha bífida, quando a espinha dorsal e a medula espinhal não se desenvolvem adequadamente.
As crianças que nascem com esta condição geralmente não podem caminhar e sofrem de acumulação de líquido no cérebro, falta de controle da bexiga e outras complicações. Um neurocirurgião pediátrico, Dr. William Whitehead, juntou-se a Belfort na mesa de operações. Os médicos realizam a cirurgia fetal de reparação de espinha bífida desde a década de 1990; não é uma cura, mas pode diminuir o grau de deficiência.
Mas agora Belfort e Whitehead estão testando uma nova técnica experimental – que alguns estão ansiosos para aprender, mas outros a veem com cautela, questionando sua segurança para o feto em longo prazo. Os cirurgiões fizeram uma grande incisão no abdômen da mãe, gentilmente levantaram seu útero – ainda ligado internamente – e abriram duas fendas pequenas, de quatro milímetros. Em uma delas, inseriram um “fetoscópio”, pequeno telescópio equipado com uma câmera, luz e uma garra. A segunda fenda foi para outros instrumentos em miniatura.
A espinha bífida ocorre no início da gravidez, entre a terceira e a quarta semanas, quando o tecido que forma a coluna vertebral deve se dobrar em um tubo e se fechar, mas isso acaba não acontecendo adequadamente. Há entre 1.500 e 2 mil casos por ano nos Estados Unidos. As causas não são totalmente conhecidas, mas em alguns casos a deficiência do ácido fólico, uma vitamina do complexo B, pode influir. Assim, são recomendados suplementos para gestantes e a vitamina é adicionada a produtos com grãos e cereais.
A introdução da cirurgia pré-natal para a espinha bífida foi um passo ousado. No começo, os médicos ficavam tão preocupados que apenas operavam se as condições fossem fatais caso nada fosse feito; mesmo que a cirurgia fosse prejudicial, o feto morreria de qualquer maneira.
A espinha bífida geralmente não é fatal, então a prática padrão era operar após o nascimento. Mas os resultados da cirurgia pós-natal eram variados: a maioria das crianças não conseguiu andar e teve outros problemas.
Os médicos começaram a suspeitar que os resultados poderiam ser melhores se o defeito fosse corrigido antes do nascimento. O dano espinal pode ser piorado pelo fluido amniótico, que se torna cada vez mais tóxico para o tecido nervoso exposto, conforme a gravidez avança e o feto despeja cada vez mais dejetos no fluido.
Os cirurgiões pensaram que se a abertura pudesse ser fechada antes do nascimento, selando o fluido, alguns dos danos nervosos poderiam ser evitados. Eles começaram a operar na década de 1990, mas não estava claro se a cirurgia estava ajudando.
Um estudo histórico publicado em 2011 descobriu que – para fetos cuidadosamente selecionados – a cirurgia pré-natal era melhor do que a pós-natal. A porcentagem de crianças que conseguiu caminhar independentemente aumentou de 20 para 40 por cento, e a necessidade de um “shunt” (um canal de desvio) foi diminuída pela metade, de 82 para 40 por cento. “Queria que a porcentagem beneficiada fosse maior”, disse Whitehead, acrescentando que até agora a cirurgia pré-natal não parece ajudar com a incontinência urinária, e a maioria das crianças com espinha bífida precisa de cateteres de urina.
A época ideal para a cirurgia é entre a 24ª e a 26ª semanas de gravidez, disse Belfort – cedo o suficiente para impedir alguns danos aos nervos, mas tarde o suficiente para que o bebê tenha uma boa chance de sobreviver se algo der errado e for preciso fazer seu parto.
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