Quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026
Por Redação O Sul | 4 de fevereiro de 2026
O uso de melatonina por crianças pequenas cresceu de forma expressiva nos últimos anos, embora não existam evidências consistentes de benefício ou segurança a longo prazo para a maioria dessa população. A conclusão é de uma revisão publicada na revista Jama Network Open, que analisou estudos sobre o uso do hormônio do sono em crianças de até 6 anos. O trabalho aponta um cenário considerado preocupante pelos autores: aumento de prescrições, uso prolongado e aumento de casos de ingestão acidental e intoxicação, especialmente em países onde o produto é vendido sem receita.
A revisão reuniu 19 estudos publicados entre 2000 e 2025, incluindo pesquisas observacionais de longo prazo e ensaios clínicos. Os dados observacionais, vindos principalmente de registros da Escandinávia, da Austrália e de centros de toxicologia dos Estados Unidos e de Portugal, indicam crescimento contínuo da prescrição de melatonina para crianças pequenas. Em alguns países, o aumento chegou a ser cinco vezes maior em pouco mais de uma década.
Também chamou a atenção dos autores, do Centro Médico da Universidade de Kansas e da Universidade da Cidade de Kansas, nos Estados Unidos, a duração do uso: entre 40% e 50% das crianças continuavam recebendo melatonina dois a três anos após a primeira prescrição, período superior ao avaliado nos ensaios clínicos.
No Brasil, o produto não é indicado para menores de 19 anos, por isso não há dados sobre o consumo entre crianças e adolescentes. Um levantamento da Google divulgado recentemente mostra, porém, a popularidade da substância no país: a procura por “melatonina” no buscador aumentou 150% nos últimos cinco anos.
Overdose
Segundo a revisão de artigos, a melatonina já é a principal substância envolvida em exposições medicamentosas não supervisionadas e em casos de overdose atendidos em emergências pediátricas nos Estados Unidos. Dados analisados no estudo mostram que o número desses episódios cresceu cinco vezes entre 2009 e 2021, com aceleração recente. Embora a maioria das ocorrências resulte em efeitos leves, há registros de quadros graves e até mortes, o que transformou o tema em um problema de saúde pública.
O artigo também diz que, nos estudos experimentais sobre o uso de melatonina por crianças, os benefícios foram restritos. Os ensaios incluíram apenas crianças com distúrbios neurológicos ou do neurodesenvolvimento, como o transtorno do espectro autista (TEA). Nesses casos, mostraram redução do tempo necessário para adormecer. Os autores, no entanto, não encontram estudos que avaliassem a eficácia do hormônio em crianças com desenvolvimento típico, nem pesquisas robustas sobre efeitos a longo prazo em aspectos como crescimento, puberdade ou saúde metabólica.
“É importante destacar que em bebês e crianças com desenvolvimento típico há poucos estudos de boa qualidade, o que significa que não é possível afirmar com segurança que a melatonina seja eficaz, segura ou até mesmo necessária nesses casos”, afirma a neuropediatra Renata Gobetti, membro da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil.
Suplemento
O trabalho destaca, ainda, diferenças importantes entre países. Em locais onde a melatonina é vendida como suplemento alimentar, como nos Estados Unidos, os casos de intoxicação cresceram rapidamente, impulsionados, em parte, por apresentações atrativas para crianças, como gomas mastigáveis. Já em países onde o uso é mais regulado, como os nórdicos, o problema central é o uso prolongado além do recomendado, muitas vezes sem reavaliações clínicas regulares.
“Para crianças pequenas, intervenções comportamentais devem ser sempre a primeira abordagem para problemas de sono”, afirmaram os autores. “Rotinas regulares, redução do tempo de tela antes de dormir e orientação familiar têm eficácia comprovada e não envolvem riscos medicamentosos”, escreveram.
Os distúrbios do sono são relativamente comuns entre crianças e adolescentes. “Essa é uma das queixas mais frequentes nos consultórios de pediatria, especialmente nos primeiros cinco anos de vida”, atesta Renata Gobetti. “Basicamente, todos os distúrbios do sono categorizados e classificados para o adulto podem acontecer na criança, embora com manifestações clínicas diferentes”, esclarece Letícia Soster, neurologista Infantil, neurofisiologista clínica e médica do sono, membro da Academia Brasileira do Sono (ABS).
Segundo as especialistas, até 30% de meninos e meninas podem apresentar algum transtorno do tipo, embora Soster acredite que o percentual esteja desatualizado. A recomendação das médicas é que se busque a causa primária da dificuldade da criança dormir e/ou permanecer dormindo, além de investir em estratégias que criem uma rotina adequada do sono.
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