Terça-feira, 17 de março de 2026

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Colunistas “Milagre” (Com um pouco de ficção)

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Sessão, que começará às 8h55min desta sexta-feira, terá fala de autores do pedido e da defesa (Foto: EBC)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Recém chegara à Câmara, quando o líder da bancada, me chamou. Comunicou-me que eu seria vice-líder (o que me deixou faceiro e preocupado) e que ficaria responsável pela sessão das quartas-feiras, dia de casa cheia e das votações mais polêmicas. Disse que o convite estava ligado ao fato de que me tinha como bom debatedor. Agradeci e fui estudar o Regimento da Casa.

À época, apesar de haver diminutas bancadas de mais 2 ou 3 partidos, na prática, o sistema era bipartidário. Na Câmara, o MDB era oposição e o PDS, a situação. Os vice-líderes adversários sentavam na primeira cadeira da primeira fila, a uma distância de menos de 2 metros, um do outro.

O vice-líder da oposição nas quartas-feiras (também um deputado novo, de oratória inflamada, nortista) com quem – por dever de ofício – já na primeira semana travei empenhado debate. Ambos precisávamos marcar posições ante o adversário e mobilizar o apoio de respectivas bancadas.  E assim aconteceu. Depois de 4 semanas de exercícios de oratória, e atenção focada no Regimento, deixara de ser um noviço intimidado.

Na quinta-feira, finda a sessão, fui tomar um cafezinho, no balcão do bar já praticamente vazio. De repente, chega meu dileto adversário que, com um ar constrangido, disse-me que ficara com dividas da campanha e que, dentro de 2 dias, tinha de pagar um valor (que, na época, significava 30% do subsidio mensal) e que não tinha o dinheiro.

Ante a minha surpresa, disse que não pediria ao pessoal do Partido porque logo se espalharia a sua situação “pré falimentar” e ele ficaria numa situação constrangedora perante seus correligionários.

Disse-me que ouvira de alguns deputados gaúchos, uma versão a meu respeito que me desenhava como um “gringo mão fechada”. Por isso, se atrevera a pedir um empréstimo, garantindo (estávamos por volta do dia 20) que, no fim do mês, quando receberíamos os nossos subsídios, ele me pagaria.

Constrangido (ele, não), mas passado o “susto” disse-lhe que, no dia seguinte, o dinheiro estaria na sua conta. Fiz isso com dor no coração. Cheio de dúvidas. Ele me pediu que não contasse a ninguém, coisa que eu não faria de jeito nenhum já que, se ele não pagasse, obviamente a voz do corredor “diria que eu era um grande babaca, caindo no conto do nortista picareta”.

No entanto, pagou-me (sem juros) direitinho, levando-me a concordar (e a efetivar) a “transação bipartidária” nos dois ou três meses seguinte.

2ª. Parte

Doze anos depois, eu era Ministro da Educação e realizava uma visita de serviço ao Estado nortista, do qual era Governador (continuávamos em partidos opostos) o ex-deputado. Minha missão era aprovar a criação da Universidade Estadual (aliás, um conjunto de faculdades elogiáveis) e assinar convênio com 20 municípios transferindo-lhes recursos para progresso de alfabetização.

Quando desci do jatinho da FAB que me transportara, fui surpreendido porque, ao pé do avião, estava o Governador, um pelotão da Polícia Militar perfilado e a banda. Em companhia dele passei em revista a tropa – meio sem jeito – ao som do hino do Estado. Fomos ao Palácio e realizamos a cerimônia oficial.

Apressei-me a sair (tinha compromisso naquela tarde, em Tocantins), quando o Coronel da FAB que pilotava o jatinho, me comunicou que o avião sofrera uma “pane seca” – falha no motor – estando, felizmente, o avião no solo. Disse-me que iriam substituir uma peça que estava vindo de outro Estado e que, por isso, o atraso seria de uma hora e meia.

Orientei um assessor que avisasse o Governo do Tocantins do que estava ocorrendo e que o Governador de la decidisse se manteríamos o programa, mesmo atrasado, ou se passaria para outra data a combinar. Foi quando o Governador anfitrião, me disse: “ o Senhor vai chegar la na hora programada”. Sorri pensando que era brincadeira. Ele tornou a falar enfático e comunicou-me: “tenho o avião para leva-lo”.

Lembrando das penúrias do Governo gaúcho (tinha aqui um avião Navajo a hélice, para cinco passageiros que, numa ocasião soltara a tampa de um dos motores, obrigando a um pouso de emergência) disse-lhe que agradecia etc e tal. Notando que a minha rejeição era também pelo fato de presumir que o avião oferecido não era muito seguro, encheu o peito e comunicou: “são dois jatinhos – um LEAR e um CITATION – a sua disposição.

Impactado, eu só soube dizer: “que bom que o seu Estado seja tão rico!” Resposta rápida de sua Excelência: “do Estado não, de minha propriedade. Preciso estar equipado porque tenho que administrar um jornal, um canal de TV, duas fazendas, várias emissoras de rádio, além do Estado”.

Foi ai que o Coronel piloto salvou-me, avisando que já haviam reparado o problema do jatinho, estando pronto para decolar. Despedi-me do ultramilionário Governador e fiquei pensando: nos 12 anos que mediavam entre o pedido de empréstimo de antes e a riqueza de agora do político.

Ele não ganhara na Loteria, e não recebera heranças. Vivera de contracheques oficiais (fora Senador, Governador etc). Sendo de família pobre, era evidente que a “vantagem” era outra, bem fácil de presumir.

Por isso, agora, quando se faz uma grande limpeza com a “Lava Jato” é fácil identificar quem se apoderou criminosamente de dinheiro público. Não da para acreditar que, com ganho de ministro, deputado ou senador alguém, de classe média, vire um nababo. Os repentinos “milionários” da política são suspeitos. É só prestar atenção, permitindo que se separe o joio do trigo.

PS: Aliás, a meia dúzia de anos, a dita cuja personagem (o ex-Governador) envolveu-se em tanta mutreta, que acabou detido, aparecendo algemado no Jornal Nacional etc etc mas logo foi liberado e, apesar das evidências, continuou solto. O mais lamentável é que, depois de tudo isso, concorreu ao Senado e alcançou a maior votação obtida por um candidato na História do seu Estado.

O povo, lamentavelmente, ingênuo, omisso, descrente ou desiludido tem ao seu dispor o voto, com o qual pode dar a melhor sentença. Cada vez que ocorre algo assim, relembro a lição de Jefferson “muitas pessoas temem pelo seu futuro; um político sério não teme pelo seu passado”.

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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