Terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Por Redação O Sul | 18 de maio de 2021
Há pouco mais de um mês no cargo, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, faz um esforço para tentar diminuir a tensão com o Supremo Tribunal Federal (STF) apesar de os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro voltarem a fazer manifestações contra a Corte. Desde que assumiu o posto, Torres tem procurado ministros para estabelecer uma relação em que fique marcado o seu distanciamento dos ataques de bolsonaristas contra eles e até mesmo das falas mais controversas do próprio presidente, que voltou a comparecer aos atos.
No sábado (15), porém, Torres, além de outros ministros, acompanharam Bolsonaro na manifestação organizada por ruralistas. O ato tinha faixas contra o STF e a CPI da Covid. Havia também pedido por intervenção militar com Bolsonaro no poder.
Ao tomar posse em 6 de abril, Torres procurou imediatamente o presidente do Supremo, Luiz Fux. Também esteve com os ministros Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques. Empenhado em demonstrar simpatia, em 19 de abril decidiu ligar para a ministra Cármen Lúcia, que estava completando 67 anos no dia. Ao pedir que o contato fosse feito, foi alertado por uma assessora que a ministra não gosta de cumprimentos de aniversário. Torres evitou a gafe e adiou o telefonema de apresentação.
O encontro com Fux no STF ocorreu em 8 de abril, dois dias após ser empossado em cerimônia no Palácio do Planalto. A primeira reunião com o presidente da Corte teve a participação de Rogério Galloro, ex-diretor-geral da Polícia Federal e hoje assessor especial de Fux. Não mencionaram Bolsonaro ou manifestações contra a Corte. Concentraram-se em falar sobre as dificuldades da vida pública e o assédio da imprensa. A agenda de Torres registra o encontro entre 16h e 17h, mas a conversa durou apenas 15 minutos.
Ronda na Corte
Uma semana depois, o ministro da Justiça voltou ao STF, dessa vez para se reunir com Nunes Marques, o “novato” da Corte, indicado por Jair Bolsonaro. Embora sem registro na agenda, Torres também se reuniu com Gilmar e Toffoli.
Entre os ministros que já visitou, Torres deixou boa impressão. Na avaliação de um integrante da Corte, o ministro da Justiça demostrou habilidade política e abertura para buscar o diálogo nos momentos mais tensos. Por ora, magistrados, em conversas reservadas, têm preferido minimizar os atos bolsonaristas que voltaram a bradar contra o STF. A avaliação é que faz parte da retórica e do momento “panela de pressão”, com o Executivo sendo alvo da CPI da Covid, instalada por decisão do Supremo.
O desafio de Torres, por ora, reside numa aproximação com o ministro Alexandre de Moraes, considerado no Planalto uma “pedra no sapato” do presidente. Moraes é relator do inquérito que apura notícias falsas e ataques contra ministros do tribunal, e também de outro que investiga atos antidemocráticos organizados por apoiadores do presidente.
Após a aposentadoria do ex-ministro Celso de Mello, Moraes também se tornou relator do inquérito que apura a suposta interferência indevida de Bolsonaro na Polícia Federal. Em fevereiro, o ministro determinou a prisão do deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ) por defender o AI-5, o mais duro ato da ditadura militar, e fazer ataques aos membros do STF.
Em junho do ano passado, em meio à escalada da crise entre os poderes, três ministros estiveram em São Paulo para se reunir com Alexandre de Moraes. A missão de paz envolveu o antecessor de Torres, o hoje advogado-geral da União, André Mendonça, o ex-chefe da Secretaria-Geral, Jorge Oliveira (atual ministro do Tribunal de Contas da União), e José Levi, então chefe da AGU. A interlocutores, Torres reconhece que a missão é difícil, mas gaba-se de ser bem articulado para construir uma ponte com Moraes.
Delegado da Polícia Federal desde 2003, ele estava até abril à frente da Secretaria de Segurança do Distrito Federal. Próximo do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), já vinha sendo cotado para o comando do Ministério da Segurança Pública.
Trabalho nos bastidores
Em 2010, Torres assumiu como chefe de gabinete do então deputado federal Fernando Franceschini (PSL-PR). Na Câmara, acompanhou o parlamentar na comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. Foi nesta época que se aproximou do então deputado Jair Bolsonaro, que assim como Franceschini, integrava a bancada da bala — grupo que agora apoiou seu nome ao ministério.