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Política Ministro diz que crise hídrica não acaba este ano. Governo discute tema desde outubro de 2020

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O nível dos reservatórios baixará ainda mais até dezembro, quando começa o período úmido. (Foto: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional)

No oitavo andar do Ministério de Minas e Energia (MME), o ar-condicionado está desligado e várias luzes estão apagadas. É o retrato de uma crise que se desenha desde o ano passado e que faz com que o ministro Bento Albuquerque precise responder diariamente a pergunta: vinte anos depois, o Brasil voltará a enfrentar racionamento de energia? A resposta é “hoje” não, mas com a ressalva de que “o monitoramento é permanente”.

Albuquerque diz que o presidente Jair Bolsonaro foi informado do risco de crise hídrica desde outubro do ano passado, quando fez uma apresentação em Power Point junto com o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone, e com Rodrigo Limp, ex-secretário de Energia do MME e atual presidente da Eletrobras.

Segundo o ministro, partiu do presidente a sugestão de criar uma campanha para incentivar a redução do consumo. A previsão é gastar R$ 120 milhões em comerciais na televisão, rádio e internet.

Aos críticos que afirmam que o governo deveria ter atuado com maior prontidão para responder aos sinais de crise, ele ressalta que é fácil falar depois que algo aconteceu. É recorrente entre os especialistas a avaliação de que o governo deveria ter sido mais ágil para adotar medidas de incentivo à redução do consumo e para poupar os reservatórios das hidrelétricas.

“É o que nós chamamos de comentarista de videotape, que comenta depois que aconteceu. Depois que aconteceu, é mais fácil dizer. Tem que ver as medidas que foram tomadas naqueles cenários. Eu acredito que as medidas que tomamos eram as medidas cabíveis naquele momento”, afirma.

Mas especialistas e governo têm ao menos um ponto em comum: a avaliação de que a crise hídrica não vai ter um ponto final em 2021. O nível dos reservatórios baixará ainda mais até dezembro, quando começa o período úmido, que segue até abril.

Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que grande parte das represas do Sudeste e do Centro-Oeste chegará ao fim do ano com menos de 10% de água.

Dificilmente haverá chuva suficiente para fazer subir o nível de um ano para o outro, até porque o solo está seco — o que faz com que seja necessário mais água para encher uma barragem.

“Evidentemente, nós não estamos preocupados só com 2021. Mas também com 2022, 2023, 2024. Porque os nossos reservatórios estão em níveis baixos e ficarão ainda mais baixos até o fim do ano. As coisas não vão se resolver em dezembro, muito menos em abril de 2022. É lógico que o nosso foco agora é prover a oferta necessária para que a gente passe sem maiores problemas por essa fase até novembro, quando o período úmido começa. Mas nós temos que fazer um trabalho de médio prazo para que possamos ter condições melhores nos anos vindouros”, afirma.

A bacia do Rio São Francisco é um exemplo da dificuldade de um sistema de armazenamento de água se recuperar de uma grave crise hídrica. O lago de Sobradinho, na Bahia, chegou a ficar com 1% de água em 2015.

Só voltou a ter 90% da capacidade em maio de 2020, após um longo processo de recuperação, de chuvas acima da média, e de um conjunto de medidas para fazer o nível da água aumentar. As usinas do Velho Chico agora estão sendo fundamentais para transmitir energia para o Sudeste.

Albuquerque afirma que setembro vai ser decisivo. Nas próximas semanas, até outubro, o governo irá avaliar o impacto das medidas tomadas no fim de agosto.

Foi anunciada a criação da bandeira de “escassez hídrica”, que representa um adicional de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos; um programa para incentivar a redução do consumo de clientes residenciais e de pequenos comércios (atendidos por distribuidoras); e uma medida para grandes empresas gastarem menos energia nos horários de pico (no meio da tarde).

O Brasil passa hoje pela pior crise hídrica em 91 anos. O nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste do país é o mais baixo para esta época do ano desde o início dos registros públicos do Operador Nacional do Setor (ONS), em 2000.

A comparação com a crise do início do século é inevitável. Da mesma forma que em 2001, a crise está concentrada na região que é a “caixa d’água” do setor elétrico. Mas há diferenças importantes, como a possibilidade de maior transferência de energia do Nordeste e Norte para outras partes do País, além do uso massivo de termelétricas — cujo impacto é sentido diretamente nas contas de luz.

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