Sábado, 11 de abril de 2026
Por Ali Klemt | 5 de abril de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Sério. O Brasil virou o país da piada pronta e da moral de cueca! (Ou é “moral NA cueca”?).
A gente chegou num nível de distorção tão grande que já não consegue mais separar o que é grave… do que é barulho. E isso, além de ser muito sério, nos empurra diretamente para a beira do abismo. Estou, verdadeiramente, preocupada e, do fundo do meu coração, a vontade que dá é a de fazer as malas e partir. Porque o que acontece aqui não é normal. Nossa qualidade de vida é péssima. As coisas estão cada vez mais caras, as pessoas estão, sim, mais pobres (e não me venha com dados do IBGE, comprometido com o governo). Em síntese: somos o país da contramão da história. Obrigada, Lula.
Mas vamos lá. Desde ontem, o assunto mais debatido do país foi o seguinte: Neymar disse, rindo, que um árbitro parecia estar “de chico”. Tipo, na TPM (eu não conhecia essa expressão, mas no resto do país parece ser muito comum).
Pronto. Foi isso que bastou para ser acusado de misoginia. Neymar, seu misógino.
Oi? Meu Deus, para o mundo que eu quero descer!
Misoginia. Por causa de uma expressão popular. Misógino por dar a entender que o juiz estava sendo “chiliquento” como uma mulher na TPM. Ora, uma mulher na TPM, muitas, muitas vezes é, mesmo, chiliquenta! Qual é o problema disso? E, mais: qual é o problema de brincar com isso? Pelo amor do senhor, tem que ser muito mal resolvida pra ver isso como uma agressão à mulher!
Sério. O Brasil virou o país da piada pronta — e da moral de cueca. (Virou? Ou sempre foi, e eu só não tinha percebido?) A gente chegou num nível de distorção tão grande que já não consegue mais separar o que é grave do que é barulho. E isso, além de ser muito sério, nos empurra diretamente para a beira do abismo. Estou, verdadeiramente, preocupada. Do fundo do meu coração, a vontade que dá é fazer as malas e partir. Porque o que acontece aqui não é normal. Nossa qualidade de vida é péssima, tudo está cada vez mais caro, as pessoas estão, sim, mais pobres — e não me venha com dados do IBGE comprometido com o governo. Em síntese: somos o país da contramão da história.
Mas vamos ao ponto. Desde ontem, o assunto mais debatido do país foi o seguinte: Neymar disse, rindo, que um árbitro parecia estar “de chico”. Pronto. Foi o suficiente para ser acusado de misoginia. Misoginia. Por causa de uma expressão popular. Uma fala no calor de um jogo virou motivo para tentativa de reconstrução moral de um indivíduo inteiro. E aí eu te pergunto: qual é o limite? Porque, sim — uma mulher pode estar mais sensível em determinados períodos hormonais. Isso é biológico. Isso é real. Qual é o problema de reconhecer isso? Qual é o problema de brincar com isso? É preciso um esforço enorme de distorção para transformar isso em agressão estrutural à mulher.
Comprovou-se, antes do que eu imaginava, os abusos que serão cometidos em nome dessa lei. E eu estou, sinceramente, enojada. Jamais me senti assim. Sinto a dor de viver em um lugar onde uma minoria radical toma conta das pautas e decide a vida de todos, impondo cada vez mais restrições — além de um recorde de tributos que faz sangrar qualquer economia doméstica. Enquanto isso, o Brasil enfrenta um dos maiores escândalos de corrupção da história recente, envolvendo fraudes no INSS; vive uma crise institucional gravíssima, com decisões judiciais que muitos já classificam, sem medo, como uma “ditadura de toga”; e ainda convive com riscos reais no sistema financeiro, com desconfianças em torno de instituições como o Banco Master. Parece que todo mundo esqueceu que Alexandre de Moraes e Dias Toffoli seguem nos seus cargos, seguem tendo poder, seguem mandando e desmandando no país, apesar de questionamentos gravíssimos já levantados. Mas tudo bem. Porque o foco agora é uma palavra. Um recorte. Um julgamento moral instantâneo.
Em compensação, bastou uma fala de quem deveria ser um ídolo nacional — mas que, mesmo sendo absolutamente bem-sucedido, é alvo constante de críticas — para a lacrosfera entrar em cena. Que sorte (ou coincidência?), logo um atleta não alinhado à esquerda. Era exatamente o que precisavam para tentar enquadrá-lo na chamada “lei da misoginia”. E aqui vale a pergunta: que lei é essa, afinal? Que, na prática, diz o quê? Que mulheres devem ser respeitadas. Sério? Precisava de uma lei nova para dizer isso? Porque isso já está previsto há décadas na Constituição Federal de 1988, que garante igualdade, dignidade e proteção a todos os cidadãos. A chamada “lei da misoginia” não cria propriamente um novo crime, mas endurece o tratamento penal de condutas que já eram proibidas, especialmente quando direcionadas contra mulheres: aumenta penas, amplia enquadramentos — inclusive no ambiente digital — e reforça a punição de violências psicológicas e morais. Em resumo, não descobre o respeito — apenas torna mais rígida a resposta do Estado a comportamentos que já eram, em tese, ilícitos. Muito bonito, na teoria. Desnecessário, na essência.
Na real, o problema do Brasil nunca foi falta de lei. É falta de coerência. É falta de aplicação. É falta de responsabilidade coletiva. Mais do que isso: é falta de vergonha na cara! A gente cria novas normas para reforçar o óbvio… enquanto ignora o essencial. E isso não aconteceu do nada. Foi sendo construído, passo a passo, dentro da chamada agenda de costumes. Sabe por quê? Porque as pessoas comuns, de boa-fé, deixaram. Não por maldade, mas por excesso de tolerância. Porque, convenhamos, quem, em sã consciência, seria contra respeito? Ninguém! Então a sociedade aceitou. Aceitou por educação, por civilidade, porque parecia o certo.
O problema veio depois. Veio quando isso deixou de ser sobre respeito e passou a ser sobre controle. Quando discordar virou violência, questionar virou preconceito e interpretar virou condenação. Quando palavras passaram a valer mais do que fatos — e quando se começou a tentar delimitar não só o que pode ser dito, mas o que pode ser pensado.
TUDO passou a ser regulado. E o problema nem é só esse. O problema é depender da interpretação, algo absolutamente subjetivo, em um país onde até o conceito de “mulher” é deturpado.
E sabe o que mais? O economista e prêmio Nobel Friedrich Hayek já alertava que o excesso de regulamentação é um caminho perigoso para a perda de liberdades individuais. Estudos de governança, como os do World Justice Project, reforçam: não são as democracias com mais leis que funcionam melhor, mas aquelas com leis claras, estáveis e aplicadas com coerência.
Olha o exemplo dos Estados Unidos. A Constituição americana tem apenas sete artigos originais — uma base enxuta, objetiva e estruturante. Ao longo do tempo, foram acrescentadas 27 emendas, permitindo adaptações sem destruir a lógica central do sistema. Não é um modelo “simples”, mas é um modelo que entende que a função da Constituição é garantir princípios fundamentais, e não controlar cada aspecto da vida em sociedade.
Enquanto isso, o Brasil segue na lógica oposta: empilha leis, cria novas tipificações, regula comportamentos, regula linguagem, e, ainda assim, falha no básico. Nunca foi sobre quantidade. É sobre coerência, previsibilidade e respeito às liberdades fundamentais.
E aí a gente chega ao ponto mais absurdo: o país afunda em problemas estruturais gravíssimos, mas mobiliza energia coletiva para discutir semântica emocional. Palhaçada! Isso não é evolução. É regressão disfarçada de virtude. No fim das contas, não estamos diante de uma sociedade mais consciente — estamos diante de uma sociedade mais mimizenta, mais reativa e infinitamente mais manipulável, que perdeu o senso de prioridade e passou a confundir barulho com importância. Lacração, roubalheira e assistencialismo, viva o Brasil de 2026!
O que nos aguarda? Cabe a cada um de nós.
Ali Klemt
@ali.klemt
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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ótima coluna
PARABENS PELO TEXTO GURIA.. O BRASIL NÃO É PARA AMADORES.. VIVA NOSSA DEMOCRACINHA MIMI, VIVA A REPUBLICA CADA VEZ MAIS DAS BANANAS…
Comentário na veia, lúcido e sincero. Fique conosco.