Segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Porto Alegre
Porto Alegre, BR
17°
Partly Cloudy

CADASTRE-SE E RECEBA NOSSA NEWSLETTER

Receba gratuitamente as principais notícias do dia no seu E-mail.
cadastre-se aqui

RECEBA NOSSA NEWSLETTER
GRATUITAMENTE

cadastre-se aqui

Colunistas “Muito Prazer”: o amor nos tempos do algoritmo

Compartilhe esta notícia:

Samantha Jones, Luísa Arraes e Daniel de Oliveira protagonizam a comédia "Muito Prazer". (Foto: Elo Studios/Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Reconhecido pelo domínio da narrativa ágil, pelas tiradas inteligentes e pelo olhar perspicaz sobre os dilemas do cotidiano brasileiro, Jorge Furtado desenvolveu uma filmografia marcada pelo equilíbrio entre o cinema de autor e a comunicação direta com o público. Em seu novo longa-metragem, “Muito Prazer”, o cineasta gaúcho retorna ao terreno da comédia para investigar as dinâmicas de afeto e desejo na era digital, mediadas por algoritmos.

A história acompanha Rubem (Daniel de Oliveira), um motorista de aplicativo sufocado por dívidas que recebe como herança um motel decadente e abandonado. O imóvel vem acompanhado de Grace (Luisa Arraes), uma ex-funcionária que fez do lugar sua casa. Para tentar sair do buraco financeiro, a dupla, com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), decide transformar o espaço em uma fonte inusitada de renda: espalham câmeras escondidas pelos quartos e faturam vendendo os vídeos dos clientes na internet.

Quartos de motel, casais empolgados, sexo quente e câmeras escondidas. Tinha tudo para ser uma comédia picante sobre voyeurismo, daquelas que cruzam a linha da sacanagem e, justamente por isso, ficam na memória. Não se trata de lamentar a ausência de nudez explícita ou o apelo vulgar. O problema é que a transgressão para por aí. Como cabe a uma produção com o selo da Globo Filmes, a ousadia esbarra na classificação indicativa e de olho na futura exibição na TV aberta, ou mesmo expansão para uma série. A opção por jogar na segurança e seguir a receita do cinema comercial acabou, paradoxalmente, limitando a força da premissa. O objetivo assumido é ser uma comédia popular bem-comportada. Em vez de cutucar o comportamento sexual contemporâneo ou fazer rir pela provocação, o filme prefere o riso inofensivo, que acomoda o espectador em vez de desafiá-lo.

Essa opção pelo caminho mais seguro fica clara no próprio trio de protagonistas. Diante da chance de espiar a intimidade dos outros, Rubem, Grace e Nalva reagem com total indiferença. Não mostram um pingo de excitação ou curiosidade, parecendo personagens imunes ao desejo. A motivação deles é pura e simplesmente o ganho financeiro, isto é, o pragmatismo de quem explora a imagem de corpos anônimos sem peso na consciência, sob a desculpa moral de que, como ninguém é identificado, ninguém sai prejudicado.

A trama, que parece se contentar em navegar apenas na superfície do tema central, mostra-se pouco envolvente e derivativa, sem soluções realmente satisfatórias. Muito contribui para esse cenário o fato de que piadas potencialmente hilárias no papel falham ao serem transpostas para a tela, deixando a impressão de que a realização ficou aquém do seu potencial. Essa distância entre a ideia e o produto final salta aos olhos quando confrontada com o próprio texto de Jorge Furtado. O roteiro é repleto daqueles diálogos vivos, coloquiais e recheados de referências enciclopédicas que se tornaram sua marca registrada. A escrita continua afiada e inventiva, mas aqui parece esbarrar na execução.

Soma-se a isso uma aparente inadequação do elenco principal, que não demonstra uma intimidade natural com o timing de comédia que o roteiro exige. Faltou o ritmo preciso para fazer fluir o humor verbal e as tiradas inteligentes que funcionavam tão bem na palavra escrita, um padrão ouro de texto brilhante e atuação inspirada que o próprio diretor já alcançou em obras como O Homem Que Copiava (2003) e Saneamento Básico – O Filme (2007).

Desta vez, a experiência de “Muito Prazer” não faz jus ao título, resultando em uma comédia que prefere a moral da história ao verdadeiro prazer da transgressão. É um filme de boas intenções que acaba morrendo na praia, vítima do medo de ousar e de um elenco que não parece ter entrado totalmente na brincadeira. Ao espectador, resta a sensação de ter assistido a uma grande ideia diluída em uma piada inofensiva e comportada.

* Jorge Ghiorzi – crítico de cinema (jghiorzi@gmail.com)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Colunistas

Deixe seu comentário

Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!

0 Comentários
mais recentes
mais antigos Mais votado
Porto Alegre poderá ter ronda voltada à proteção de crianças e adolescentes
Senadores pretendem aprovar, sem debater, PECs do fim da jornada 6×1, da Segurança e a MP da “taxa das blusinhas”
Pode te interessar
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x