Terça-feira, 23 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 21 de setembro de 2018
O número de mulheres brasileiras que busca o congelamento de óvulos para adiar a maternidade triplicou. Quem fiscaliza as clínicas de reprodução assistida no Brasil é a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), mas a agência não possui números oficiais de óvulos congelados no País com o objetivo de prolongar a “janela de oportunidade” das mulheres para a maternidade.
A Anvisa tabula e monitora apenas a quantidade de embriões – segundo o Sistema Nacional de Produção de Embriões, o SisEmbrio, em 2017, 75.557 embriões foram congelados no Brasil, um aumento de 13% em relação ao ano de 2016, quando 66.597 embriões foram congelados.
Levantamento feito pela BBC News Brasil em seis clínicas de reprodução assistida em São Paulo e no Rio de Janeiro confirma essa tendência de aumento de casos de congelamento para preservar a fertilidade.
A Clínica Huntington, por exemplo, uma das maiores de São Paulo, praticamente triplicou o número de pacientes que congelaram seus óvulos em cinco anos: em 2012, 122 mulheres passaram pelo procedimento; em 2017 foram 353 – um salto de 189%.
O mesmo aumento foi verificado na clínica Fertility, também em São Paulo. Em 2013, 65 mulheres congelaram seus óvulos na unidade, contra 180 no ano passado, o que representa um aumento de 176% na procura pelo serviço.
“Em 2013, 5,5% dos procedimentos da clínica eram congelamento de óvulos. Em 2015, eles já representavam 9,4%. Em 2018, 1 em cada 5 procedimentos realizados na Fertility são de criopreservação de óvulos. Isso mostra claramente uma mudança de conduta da mulher”, afirma Edson Borges.
Nas Clínicas Mãe e Engravida, o salto foi de quase cinco vezes: saiu de 32 casos em 2012 para 188 casos cinco anos depois.
Idade certa
Os especialistas em reprodução assistida recomendam que a mulher que pretende adiar a gravidez congele seus óvulos até os 35 anos, enquanto eles são mais novos e possuem mais qualidade.
Apesar disso, a idade média das mulheres que têm procurado o serviço gira em torno de 37,7 anos. “O ideal mesmo seria congelar esses óvulos antes dos 30 anos, mas nessa idade ninguém está pensando nisso ainda”, afirma a médica Thaís Sanches Domingues Cury, da Clínica Huntington.
O principal problema de procurar a técnica mais tarde, explica Thaís, é ter de submeter a paciente a mais de um ciclo de coleta e o risco de os óvulos não terem mais a qualidade necessária. Os médicos sugerem congelar pelo menos 15 óvulos.
“A mulher de 40 anos tem menos estoque ovariano, então é possível que ela tenha de se submeter ao procedimento mais de uma vez para conseguirmos coletar uma quantidade mínima e segura de óvulos”, diz a especialista.
Efeitos colaterais e riscos
Os efeitos colaterais do período em que a mulher recebe hormônio para superestimular a ovulação são irritação, ansiedade e em alguns casos um pouco de inchaço.
Os hormônios que a mulher vai receber nesse período são o FSH e LH – que já circulam normalmente no organismo. Esses hormônios são diferentes dos hormônios usado em pílulas anticoncepcionais (estrógeno e progesterona), que têm como objetivo justamente impedir a ovulação.
A mulher vai receber uma dose maior de FSH e LH e, em vez de ovular um único óvulo, vai ovular vários. Nessa fase do tratamento, não há riscos de trombose ou embolia, por exemplo.
No caso de mulheres com histórico de câncer de mama na família, a estimulação ovariana é feita com outro hormônio, o letrozol.
Quando a mulher for preparar o endométrio para receber o embrião, aí sim o risco de trombose aumenta – caso a paciente tenha pré-disposição ou antecedentes.
Para evitar o problema, todas as mulheres passam por exames que avaliam esse risco e, se ele existir, recebem junto um medicamento anticoagulante diariamente.
Investimento
O Sistema Único de Saúde não paga pelo processo de congelamento de óvulos para adiar a maternidade.
Hoje há apenas 11 hospitais públicos no Brasil que trabalham com reprodução assistida – todos com filas imensas e já para fazer o tratamento em si.
Assim, a mulher que deseja ser mãe mais velha precisa investir cerca de R$ 18 mil no procedimento. Os preços variam de clínica para clínica, mas apenas os custos com medicação somam cerca de R$ 6 mil.
A parte clínica e de laboratório giram em torno de R$ 12 mil. Além disso, a mulher terá de pagar cerca de R$ 1 mil por ano para manter os óvulos criopreservados.
Anualmente, as clínicas são fiscalizadas pela Anvisa, que vai observar se as unidades cumprem os requisitos de qualidade para manter material biológico congelado e vai monitorar a qualidade dos procedimentos.
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