Terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Por Redação O Sul | 17 de fevereiro de 2026
No ano em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende disputar a reeleição, a escola de samba Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, escolheu apresentar na Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. Foi impossível disfarçar o tom de propaganda eleitoral antecipada, como pôde perceber qualquer um que tenha assistido ao desfile no domingo à noite.
O refrão do samba-enredo era exatamente o slogan adotado em todas as campanhas de Lula há décadas — “olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!”. A letra fazia referências a motes frequentes da propaganda do governo que decerto serão tema da campanha prevista para começar em agosto. É o caso da exaltação à “soberania” contra “tarifas e sanções”, ao “filho de pobre virando doutor”, à “comida na mesa do trabalhador” e do ataque implícito ao ex-presidente Jair Bolsonaro no verso “sem mitos falsos, sem anistia”. Para quem duvidasse do alvo, por duas vezes Bolsonaro foi retratado jocosamente na Marquês de Sapucaí como o palhaço Bozo, trancafiado atrás de grades. Alas homenagearam a estrela vermelha do PT, ironizaram conservadores como latas de conserva e associaram “patriotas” à bandeira dos Estados Unidos.
Não é de hoje que a política se infiltra no desfile das escolas de samba. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, o venezuelano Hugo Chávez e até a ditadura militar já foram tema de enredos. O carnaval é uma festa popular que não deveria se misturar com a política eleitoral. Mas o regulamento da Liga das Escolas de Samba (Liesa) não proíbe de modo explícito manifestações dessa natureza no desfile. A Liesa deveria cuidar para evitar esse tipo de uso da festa. Ainda que se possam admitir homenagens históricas, uma coisa é louvar figuras do passado, outra bem diferente é fazer propaganda política em ano de eleição. Lula e o PT deveriam ter desencorajado essa ideia descabida desde o nascedouro, afinal são todos políticos experientes, com plena condição de avaliar as consequências de seu endosso.
Em vez disso, limitaram-se a tomar providências preventivas, como impedir ministros e a primeira-dama Janja Lula da Silva de desfilar — mesmo assim de última hora. Ela e vários ministros ficaram na plateia, mas nenhum dos cuidados foi suficiente para evitar o tom eleitoreiro. Apesar do veto nos ensaios ao gesto do L (para não configurar pedido de voto), o mestre de bateria e o puxador do samba não se furtaram a fazê-lo diante das câmeras. E o próprio Lula não se conteve. Lá pelas tantas, desceu à avenida acompanhado do prefeito Eduardo Paes para confraternizar brevemente com a escola. Pareceu arrogância.
O desfile da Acadêmicos de Niterói é alvo de pelo menos dez iniciativas na Justiça. A mais relevante tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Corte autorizou o desfile, mas fez inúmeras ressalvas. “É um ambiente propício para que haja excessos, abusos e ilícitos”, afirmou a presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia. Ela assegurou que a autorização não representava um “salvo-conduto” para violar leis eleitorais. Cabe agora ao TSE estipular se as salvaguardas foram respeitadas e, se for o caso, determinar que punições devem ser adotadas. (Opinião/Jornal O Globo)
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