Domingo, 30 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 24 de julho de 2020
Um boato em circulação no Facebook engana ao afirmar que a vacina da empresa AstraZeneca, desenvolvida pela Universidade de Oxford, “já tem comprovação científica” contra o novo coronavírus. Apesar de ser uma das mais avançadas na corrida por uma imunização contra a Covid-19, ela ainda está em desenvolvimento e precisa superar a terceira etapa de testes clínicos antes de ser apontada como uma alternativa segura e eficaz. O Estadão Verifica (serviço de checagem de notícias do jornal O Estado de S. Paulo) analisou esse conteúdo com base em informações científicas sobre o novo coronavírus disponíveis em 24 de julho de 2020.
As postagens começaram a circular nas redes sociais depois que cientistas publicaram artigo, em 20 de julho, na revista The Lancet, mostrando que a vacina experimental produziu resposta imune e não provocou efeitos colaterais graves em voluntários saudáveis. Esses resultados, no entanto, referem-se apenas às fases 1 e 2 de testes, feita com 1.077 pessoas, com idades entre 18 e 55 anos, no Reino Unido. Falta ainda a terceira etapa, que está em andamento com 50 mil voluntários, incluindo 5 mil brasileiros, em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A etapa não é uma mera formalidade, porque tem como objetivo simular as condições naturais da presença da doença. O biólogo e colunista do Estadão Fernando Reinach explica que os milhares de voluntários são colocados, aleatoriamente, em dois grupos. Metade é injetada com a vacina, e a outra metade com uma substância inócua. Nem os voluntários, nem a equipe de acompanhamento tem conhecimento da informação, para evitar influenciar comportamentos. É o que se chama de estudo duplo-cego.
Quando o número de voluntários infectados atinge determinado valor, os cientistas resgatam a lista, verificam a que grupo as pessoas pertencem e comparam os dados. O resultado pode demonstrar tanto que a vacina funciona, quanto o contrário — ou mesmo exigir mais tempo para a análise, destaca o especialista. Se obtiver sucesso, a vacina é submetida às autoridades regulatórias, para então começar a ser fabricada em larga escala, comercializada e distribuída para a população.
Reinach alerta que o início da fase 3 do desenvolvimento das vacinas cria a expectativa “de que estamos quase lá”, mas que a realidade “não é bem assim”. “Muitos dos projetos morrem nessa fase. E infelizmente a taxa de mortalidade é alta. Mas as esperanças também se justificam. Afinal, essa é a última fase dos testes”, relata em texto publicado na quarta-feira, 22.
Ao anunciar a pesquisa na segunda-feira, 20, o principal autor do estudo, Andrew Pollard, da Universidade de Oxford, demonstrou cautela com os resultados. “Esperamos que isso signifique que o sistema imunológico se lembre do vírus, para que nossa vacina proteja as pessoas por um período prolongado”, disse Pollard. “No entanto, precisamos de mais pesquisas antes de confirmarmos que a vacina protege efetivamente contra a infecção por SARS-CoV-2 e por quanto tempo dura a proteção.”
Normalmente, a vacina levaria 18 meses para ser aprovada, mas os cientistas estão confiantes de que conseguirão encurtar esse período para 12 meses, caso os resultados sejam positivos. A previsão é da reitora da Unifesp, Soraya Smaili, que coordena os testes no País. Dessa forma, tendo os primeiros resultados da terceira etapa no fim deste ano, o registro poderia ser liberado até junho de 2021.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) também comentou sobre a pesquisa publicada na The Lancet, no início da semana. O diretor de emergência da OMS, Michael Ryan, comemorou os resultados, mas ponderou que ainda há etapas até a imunização chegar ao público. “Estes são os estudos da fase 1, agora precisamos avançar para testes em larga escala no mundo real. Mas é bom ver mais produtos avançando até essa fase importante na descoberta da vacina”, afirmou Ryan. Na quarta-feira, ele declarou ainda que as previsões têm de ser realistas e que não acredita que as pessoas serão vacinadas até, pelo menos, o início de 2021. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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