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Mundo No conflito entre Israel e Hamas, além dos palestinos e israelenses mortos e feridos, maior vítima é o que ainda restava do processo de paz

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Palestinos inspecionam os escombros de sua casa destruída após ataques aéreos israelenses. (Foto: Reprodução)

O frágil cessar-fogo intermediado pelo Egito entre Israel e o grupo islâmico Hamas traz uma bem-vinda sensação de alívio às populações israelense e palestina dos dois lados da fronteira. Israel dirá ter atingido seu objetivo militar ao reduzir literalmente a pó o arsenal, os túneis e instalações bélicas do inimigo. O Hamas, por seu turno, reivindicará uma vitória política, ao proclamar-se como legítimo defensor do povo palestino, único que resistiu às investidas israelenses em Jerusalém, em contraste com a Autoridade Palestina (AP), que governa a Cisjordânia.

Surgirá naturalmente a percepção de que está de volta o equilíbrio instável de alta tensão, com choques esporádicos desde que Israel devolveu a Faixa de Gaza aos palestinos em 2005 e que o Hamas passou a governá-la em 2007. Nada mais enganoso. O cessar-fogo inaugura uma nova fase no conflito, em que ilusões se desfazem – e as perspectivas não são nada animadoras.

Do ponto de vista político, a maior vítima é a solução de dois Estados proposta nos Acordos de Oslo, de 1993. Enfraquecida desde o choque entre Israel e Hamas em 2014, ela se tornou decididamente causa perdida. Seus defensores, tanto entre israelenses quanto entre palestinos, estão enfraquecidos. Simplesmente não há clima para nenhum tipo de negociação, nem força política para que quaisquer concessões possam ser impostas ao campo político de qualquer lado. Além de 243 palestinos e 13 israelenses, o conflito matou o pouco que ainda restava do que um dia se chamou processo de paz.

Israel consolidou a política de colonização da Cisjordânia, que hoje praticamente inviabiliza as fronteiras imaginadas para o Estado palestino. Desde Oslo, a população judaica no território cresceu de 123 mil para 475 mil. Ao mesmo tempo, Israel caminhou para a direita. Movimentos de colonos e grupos religiosos nacionalistas contrários a qualquer concessão aos palestinos têm importância a cada dia maior na política interna. Nas últimas eleições, a extrema-direita racista obteve pela primeira vez assento no Parlamento.

Legislação e políticas em detrimento dos árabes com cidadania israelense fizeram fermentar entre os jovens uma revolta inédita, que os aproxima da população de Gaza e Cisjordânia. O conflito em Jerusalém Oriental, pretexto para o Hamas disparar seus foguetes, é exemplo disso. O cancelamento das eleições palestinas previstas para este ano, as primeiras depois de uma década e meia, enfraquece ainda mais a liderança de Mahmoud Abbas na AP. O Hamas tenta aproveitar o vácuo para consolidar seu poder e, com apoio do Irã, expandir a visão apocalíptica que sempre pregou a destruição de Israel.

É incerto o que o futuro reserva a esse embate. Cresce o protagonismo dos partidos árabes na política israelense. Em certa medida, trocaram o sonho do Estado palestino pela luta por direitos dentro de Israel. Ao mesmo tempo, os foguetes do Hamas e a revolta inédita entre os árabes com cidadania israelense são a prova de que, embora o processo de paz esteja morto, o nacionalismo palestino ainda está vivo. As informações são do jornal O Globo.

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