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Brasil No País uma sofisticada indústria de lavagem de dinheiro a serviço de políticos, empresários e servidores públicos

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Juiz Sérgio Moro (Foto: Fabio Pozzebom/ABr)

O volume de recursos públicos desviados no País fez surgir uma sofisticada indústria de lavagem de dinheiro a serviço de políticos, empresários e servidores públicos. A lavanderia brasileira tem hoje estrutura profissional, com métodos cada vez mais difíceis de serem descobertos. Na avaliação de investigadores, os crimes contra a administração pública direcionam mais recursos sujos para a lavagem do que o tráfico de drogas – que tradicionalmente movimenta somas expressivas e sempre desafiou as autoridades de combate a ilícitos.

Só nos inquéritos em curso, a PF (Polícia Federal) apura, atualmente, desvios de 43 bilhões de reais dos cofres da União. Desse total, 19 bilhões de reais se referem às perdas da Petrobras investigadas na Operação Lava-Jato. O montante é o triplo do admitido pela estatal.

O valor recuperado ou bloqueado somente nessa operação é, por ora, de 2,5 bilhões de reais – oito vezes mais que o valor de bens apreendidos de traficantes em todo o ano passado. “O dinheiro sujo hoje no Brasil não é só droga, é principalmente desvio de recursos públicos, porque é muito fácil. É bi [bilhão], bi e bi. A lavagem é assustadora”, diz um dos chefes do combate à corrupção na PF. Estimativa da Organização das Nações Unidas divulgada em 2012 indica que, considerando todas as esferas de governo, o desvio de recursos públicos já chega a 200 bilhões de reais por ano no País.

Para o diretor do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça, Ricardo Saad, essa constatação é resultado da mudança de foco. “Antes tinha-se a percepção de que era o tráfico [que mais lavava dinheiro]; hoje as autoridades estão mais voltadas em combater a corrupção. O número de processos está muito nivelado”, afirmou.

Para delegados, procuradores, juízes e responsáveis pelo setor de inteligência financeira, a arte de reciclar as riquezas obtidas por organizações criminosas e dar a elas fachada legal ficou mais complexa. “Tudo ocorre no mundo das sombras. Mas, para ambos os crimes, as cifras são expressivas, considerando apenas os casos conhecidos”, declarou o juiz federal Sérgio Moro, que atua na Operação Lava-Jato.

De meros operadores do mercado clandestino de câmbio, doleiros viraram “bancos” de dinheiro sujo e especialistas em gerir o caixa 2 de empresários corruptores. Bancos internacionais oferecem a seus clientes VIP produtos para ocultar suas fortunas no exterior, seja qual for a origem da quantia. O dinheiro das quadrilhas brasileiras se desloca de tradicionais paraísos fiscais na Europa e no Caribe para destinos na Ásia e Oceania, cujas autoridades não têm tradição de colaborar com os investigadores brasileiros.

Principalmente em casos de corrupção, que envolvem a blindagem de políticos e altos funcionários públicos, as organizações criminosas contratam profissionais altamente especializados, os chamados “gatekeepers” (porteiros ou “abridores de portas”), como consultores financeiros, contadores e advogados. A tarefa é organizar as operações financeiras complexas para movimentar o dinheiro de origem ilícita e criar estruturas societárias para ocultar a real propriedade dos valores.

“Uma das características da lavagem de dinheiro moderna é a profissionalização, outra é a complexidade, e outra, a internacionalidade. Essas pessoas, como o [doleiro Alberto] Youssef, são lavadores de dinheiro terceirizados”, afirma o procurador da Operação Lava-Jato Deltan Martinazzo Dallagnol. Ele explica que os criminosos de colarinho branco estão dispostos a pagar altas comissões por uma operação supostamente indetectável.

Em depoimentos prestados em regime de delação premiada na Lava-Jato, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa disse que, ao dividir as propinas milionárias do esquema na estatal, 60% dos valores ficavam com partidos políticos e 20% cobriam custos, como a montagem de empresas de fachada, o pagamento de tributos, a emissão de notas frias e o pagamento de “gatekeepers”. Os outros 20% eram divididos entre ele próprio e o doleiro Youssef. “Se você for pensar, ninguém precisava de Youssef ou de operador. Mas eles entram como catalisadores, para facilitar a lavagem”, acrescenta o procurador.

Tecnologia

Novas formas de “reciclar” dinheiro sujo estão surgindo com a inovação tecnológica. É o caso das moedas virtuais, como as “bitcoins”, e dos meios de pagamento como cartões pré-pagos, formas fáceis de fazer transitar fortunas sem chamar a atenção. “São eles [os criminosos] correndo na frente e nós atrás”, diz um dos chefes do combate à corrupção da Polícia Federal. O que não significa que métodos arcaicos tenham sido abandonados.

O diretor-geral de Combate ao Crime Organizado da PF, Oslaim Santana, afirma que o Brasil tem feito nos últimos anos acordos com outros países para receber informações sobre recursos desviados da administração pública, escondidos no exterior, em troca de fornecer dados sobre organizações internacionais de tráfico de drogas. “O que nos interessa, o que mais aflige a população brasileira, é a corrupção”, declara Santana. Na avaliação do secretário nacional de Justiça, Beto Vasconcelos, “não há afrouxamento, mas endurecimento da atuação do Estado” no combate ao crime. (Andreza Matais e Fábio Fabrini/AE)

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