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Nova fonte de receita do WhatsApp traz risco de fraude, dizem analistas

O WhatsApp, aplicativo de mensagens da Meta, começou a oferecer a opção para cada usuário criar e reservar um nome. (Foto: Reprodução)

O WhatsApp, aplicativo de mensagens da Meta, começou a oferecer a opção para cada usuário criar e reservar um nome, deixando seu número de celular oculto para novos contatos. A empresa afirma que o recurso, que entra em vigor nos próximos meses, é uma forma de proteger a privacidade de seus mais de 3 bilhões de usuários. Do ponto de vista da cibersegurança, entretanto, especialistas dizem ao jornal Valor Econômico que a função não será um impeditivo para tentativas de golpes pelo aplicativo e pode, inclusive, elevá-los.

Em 2025, 67% dos incidentes detectados pela empresa de cibersegurança Sophos, em 70 países, tiveram origem em ataques relacionados à identidade, segundo a coleta de dados realizada entre novembro de 2024 e outubro de 2025. “Isso confirma que a identidade digital se tornou o principal alvo dos criminosos, superando a exploração direta de vulnerabilidades”, diz o vice-presidente de vendas da Sophos na América Latina, Wagner Tadeu.

Para autoridades da Índia, país com o maior número de usuários do WhatsApp no mundo, seguido pelo Brasil, a iniciativa gerou preocupação. No último dia 2, o Ministério de Tecnologia indiano enviou uma notificação à Meta instruindo a companhia a adiar o lançamento do recurso.

Como justificativa, o ministério disse acreditar que os nomes de usuário podem aumentar a incidência de fraudes on-line, de golpes e a criação de perfis falsos, segundo documento obtido pela Bloomberg. Pedidos de informações aos aplicativos Telegram e Signal, que já atuam com nomes de usuários no lugar de celulares, também foram enviados.

Ao cadastrar um nome de usuário no WhatsApp ou WhatsApp Business, uma pessoa física ou jurídica deixa de ser acessada por novos contatos pelo número de celular, informa a Meta, que também é dona do Facebook, Instagram e Threads. O acesso pelo nome de usuário aplica-se somente a novos contatos a partir da entrada do recurso em vigor, nos próximos meses, mas ainda sem data definida.

Segundo a Meta, o nome de usuário ficará oculto no perfil do aplicativo, com acesso apenas ao dono da conta. Assim, se um novo contato pessoal, grupo ou empresa quiser adicionar seu contato, não poderá fazê-lo pelo número de celular, somente se souber o nome de usuário.

O analista principal da consultoria eMarketer na América Latina e Espanha, Matteo Ceurvels, destaca que o Brasil é um dos mercados mais importantes do WhatsApp onde “o aplicativo já desempenha um papel central no comércio, no atendimento ao cliente e nas comunicações de pequenas empresas, tornando-se um campo de testes natural para a forma como as empresas adotam nomes de usuário”.

Em 2025, 93,9% dos brasileiros conectados com idade a partir de 16 anos usaram o WhatsApp ao menos uma vez no mês, informa o relatório “Digital 2026” das empresas Meltwater e We Are Social.

Ao mesmo tempo, Ceurvels observa que o novo recurso pode atrair maior escrutínio sobre como a Meta protege os consumidores e combate fraudes.

“As preocupações levantadas pelos órgãos reguladores na Índia refletem questões mais amplas sobre proteção do consumidor e responsabilidade das plataformas, temas com os quais os aplicativos de mensagens vêm lidando há anos”, diz o analista.

Na opinião de Tadeu, da Sophos, a melhor estratégia de proteção nos meios digitais, incluindo aplicativos de mensagens, é adotar mais de um recurso de segurança. “Nomes de usuário podem facilitar golpes de falsificação de identidade caso existam identificadores muito parecidos. Em pagamentos digitais, um criminoso pode tentar induzir a vítima a acreditar que está transferindo recursos para uma pessoa ou empresa legítima”, alerta o executivo. “A segurança depende da combinação de autenticação forte, inteligência para detectar ameaças, análise comportamental e conscientização dos usuários.”

Para o analista principal da eMarketer, é pouco provável que os nomes de usuário alterem fundamentalmente o cenário de fraudes em aplicativos de mensagens, que exploram números de telefone, endereços de e-mail e perfis em redes sociais para se passar por pessoas ou empresas.

“Os nomes de usuário simplesmente introduzem mais um identificador passível de uso indevido, caso não existam as devidas salvaguardas. Eles podem facilitar certos tipos de falsa identidade – caso alguém registre um nome de usuário reconhecível antes de uma empresa legítima ou de uma figura pública.”

Consultada pelo jornal Valor Econômico, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável por regular a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), informou não ter recebido, até o momento, denúncia ou iniciado monitoramento sobre a reserva de registros de nomes em aplicativos de mensagens no país.

A subsidiária brasileira da Meta informou que a escolha do nome de usuário no WhatsApp “trata-se de um recurso de privacidade, e não de um nome de perfil de rede social”. Segundo a empresa, “as pessoas precisam saber o seu nome de usuário exato para entrar em contato com você pela primeira vez.”

Se for bem-sucedida, a promessa da Meta de reduzir contatos não solicitados pelo WhatsApp é uma forma de aumentar a receita com publicidade e assinaturas no aplicativo.

“Os nomes de usuário têm menos a ver com transformar o modelo de negócios do WhatsApp e mais com tornar a plataforma mais fácil de usar, tanto para empresas quanto para consumidores”, diz Ceurvels, da eMarketer. “A verdadeira oportunidade para a Meta não está em monetizar os nomes de usuário em si, mas sim em eliminar atritos, incentivando mais conversas comerciais, fortalecendo o comércio e, em última análise, expandindo o ecossistema comercial que a Meta vem construindo em torno do WhatsApp.”

Este ano, o WhatsApp deve gerar US$ 1,08 bilhão para a Meta com anúncios como os exibidos na aba “status”, um crescimento de 125,1% ante a receita de 2025, projeta a eMarketer (ver gráfico acima). Em 2026, o WhatsApp poderá responder por 0,4% da receita de publicidade total dos aplicativos da Meta (US$ 247,4 bilhões), segundo projeção da consultoria. Em 2027, a participação poderá subir para 0,8%.

A Meta informa que há uma opção de manter no WhatsApp os mesmos nomes de perfis já adotados por marcas, influenciadores e organizações nas redes sociais Instagram e Facebook. As informações são do jornal Valor Econômico.

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