Quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 26 de novembro de 2023
O governo de Javier Milei terá de se equilibrar entre a busca por um choque de confiança e as pressões sociais, diz o argentino Fernando Montero, economista-chefe da corretora Tullett Prebon. Para ele, o caminho para combater a gravíssima crise econômica da Argentina deve ter como prioridade a correção de preços relativos, como o ajuste da taxa de câmbio oficial, o aumento das tarifas públicas e a redução de subsídios, e o foco no problema fiscal.
“A partida tão desastrosa, com dívidas represadas, reservas líquidas negativas, inflação altíssima, pobreza, desabastecimento, torna tudo mais urgente e também mais perigoso”, afirma Montero. Ele destaca que “a correção de preços relativos é inflacionária e deve ser bastante recessiva”, implicando queda de renda e uma política monetária dura. “O choque de confiança que poderia absorver algo deve demorar, por ter que vir de um governo do qual se desconhece a capacidade de articulação e de apoio. Vai ter muito ruído político e nas ruas”, diz Montero, ex secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Na visão de Montero, “mais importante do que o que deve ser feito é a sequência em que será feito”. Um exemplo é “não correr para levantar o cipoal das taxas de câmbio sem encaminhar uma fórmula crível para o fiscal e monetário”. Antes de desmontar o emaranhado de múltiplas taxas para a moeda, é necessário primeiro dar um encaminhamento mínimo para “a montanha” das Letras de Liquidez (Leliqs), títulos de curto prazo do Banco Central argentino, que, segundo ele, lembram o overnight brasileiro da época da superinflação. A cada 28 dias, vencem grandes volumes desses papéis.
E a proposta de dolarização de Milei, é possível e desejável? “Aqui é importante entender que o país não tem escassez de dólares”, diz Montero. “Essa história de que a Argentina não pode dolarizar porque não tem dólares é falsa. O país tem e eles viriam com um mínimo de garantias e um câmbio de mercado: do exterior, dos cofres, do colchão. Mas eles são do público. Quem não tem os dólares é o governo, que não tem com que recomprar toda a sua dívida em pesos e a própria moeda em circulação”, diz ele. “O problema não é de onde viriam os dólares para dolarizar, mas para onde iriam a montanha de Leliqs e os pesos. Despesificar é que é difícil.” No fundo, o que é necessário para dolarizar permitiria a convivência das duas moedas, muito antes e com custo muito menor, diz Montero. “Era o plano da turma de Patricia Bullrich e imagino que poderia ser a trilha natural de Milei, muito menos arriscada e mais convencional”. Nesse cenário, o ideal seria permitir a convivência das duas moedas, sem uma dolarização total. “O programa de Bullrich era isso. Não reinventa a roda, é menos perigoso e não queima as naves.” Bullrich foi a terceira colocada nas eleições, concorrendo pelo partido do ex-presidente Mauricio Macri, antecessor do atual presidente, Alberto Fernández. No segundo turno, ela apoiou o ultradireitista Milei.
Ao comentar a possibilidade de Luis Caputo, ex-presidente do BC e ex-ministro das Finanças, assumir o Ministério da Economia, Montero diz que se trata de “um homem de Macri e avesso à dolarização” – um sinal de pragmatismo. “Tudo o que aproxime Milei de Macri e o afaste da dolarizacão é bem vindo.”
Para Montero, prevalecerá o pragmatismo nas relações entre Brasil e Argentina, a despeito das críticas de Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Mercosul. “O Brasil é três vezes mais importante para a Argentina do que a Argentina para o Brasil. Aqui não dá para mudar de vizinho.” Leia a seguir um dos trechos da entrevista que ele concedeu ao jornal Valor Econômico.
– A Argentina enfrenta uma série de desequilíbrios, com inflação acima de 140% em 12 meses e atividade em queda, um câmbio oficial muito valorizado, enormes subsídios, tarifas públicas defasadas e uma situação fiscal delicada. Quais os principais fatores que levaram a uma economia tão disfuncional? “Evidentemente que o cerne é político. É um país dividido desde o peronismo, que parece não conseguir sair dos anos 50. Mas são muitos fatores. O kirchnerismo aponta a dívida externa contraída por Macri para financiar a fuga de capitais – diga-se, diante da perspectiva da volta do kirchnerismo. Essa turma, por sua vez, está deixando uma dívida comercial represada enorme. Há também as secas espantosas num país muito dependente do campo para atividade, câmbio e arrecadação. O efeito da pandemia, sem o espaço fiscal que o Brasil teve para combater o problema. O uso intenso do dólar, que torna a economia muito mais volátil, e aumenta a tentação de controlar o câmbio e as divisas.” As informações são do jornal Valor Econômico.
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