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Mundo O presidente eleito mantém os argentinos sem saber como serão resgatados da crise

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(Foto: Divulgação)

Jovens de uma banda de rock falavam sobre seu novo disco a uma rádio, quando foram surpreendidos por um telefonema elogioso de um fã — o recém-eleito presidente da República. Aconteceu em Buenos Aires. Na linha estava Alberto Fernández, de 60 anos, professor de Direito, que vai governar a Argentina.

Políticos costumam dizer que o melhor momento de um governante é entre a vitória eleitoral e a posse. Para Fernández, essa lua de mel termina na posse, terça-feira. A partir daí, ele terá de tomar decisões sobre: o que fazer com uma inflação em torno de 55% ao ano; pedir ou não prorrogação de mais dois anos na moratória da dívida argentina, de US$ 57 bilhões; e como socorrer 16 milhões de pobres (40% da população urbana), metade submetida a uma dieta involuntária nos últimos 12 meses por escassez de dinheiro para comprar comida, segundo a Universidade Católica Argentina.

Fernández cercou-se de cuidados na montagem do ministério para transmitir a mensagem de autonomia em relação à vice, Cristina Kirchner, ex-presidente de quem foi chefe de gabinete. Conseguiu reafirmar a impressão de um futuro governo pouco coeso, o que seria um complicador político.

Fernández terá de conviver com grupos que gravitam em torno da vice. Um deles é conhecido como La Cámpora, liderado por um dos filhos de Cristina Kirchner e por seu antigo ministro da Economia, Axel Kicillof, novo governador da Província de Buenos Aires.

Suas propostas econômicas são pautadas pelo receituário do caudilho Juan Perón, para quem o espectro de colapso econômico não passava de ficção política, porque “não há nada mais elástico que a economia, que todos temem porque ninguém a entende”. Aplicada aos governos de Néstor e Cristina Kirchner, resultou numa Argentina quebrada, com desemprego recorde e aumento da pobreza nas cidades.

Fernández ainda não deu pistas de como planeja dinamizar a economia, numa etapa de aguda polarização política em ambiente de pobreza crescente. Espera-se que até quarta-feira esclareça o que e como pretende fazer com a inflação, a dívida e os gastos sociais. É quando acaba o encanto da vitória eleitoral e começa a rotina de governo.

Brasil não vai

O ministro da Cidadania, Osmar Terra, não será mais enviado para a posse de Alberto Fernández na Argentina, na próxima terça-feira, por decisão do presidente Jair Bolsonaro. A tendência é que o governo brasileiro não tenha um representante enviado de Brasília para a cerimônia.

No início de novembro, Bolsonaro anunciou que o Brasil não enviaria ninguém para a posse. Depois, no entanto, afirmou que Terra representaria o país. A vivência política do ministro na fronteira entre os dois países — Terra é gaúcho e foi prefeito de Santa Rosa — pesou para a escolha. O ministro também morou em Buenos Aires na década de 1970, durante a ditadura militar brasileira.

Bolsonaro e Fernández trocaram acusações mútuas durante a campanha eleitoral argentina. O presidente brasileiro — que torcia pela reeleição de Mauricio Macri, de centro-direita — ficou irritado quando o peronista postou, na noite de sua vitória, um post no Twitter felicitando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por seu aniversário e pedindo a sua libertação. Fernández já havia visitado o ex-presidente quando ele estava preso em Curitiba.

Mas nos últimos dias, o argentino fez acenos a Bolsonaro. Na quinta-feira, o presidente eleito se reuniu com o presidente da Câmara , Rodrigo Maia (DEM-RJ), em Buenos Aires, e enviou uma mensagem de “respeito” e “apreço” ao brasileiro. Além disso, Daniel Scioli, escolhido para ser embaixador da Argentina no Brasil, disse em entrevista ao GLOBO que terá a missão de “aproximar posições” e “desestressar a relação”. Scioli, que participou da reunião com Maia, afirmou que no encontro os dois coincidiram na necessidade de “deixar os desencontros (com Bolsonaro) para trás”.

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