Domingo, 12 de abril de 2026
Por Ali Klemt | 29 de março de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Deixa eu te fazer uma pergunta… Você não está ab-so-lu-ta-men-te cansado com tudo isso que vem acontecendo no nosso país?
Olha, se você é uma pessoa de bem e acompanha as notícias, a vida não está nada fácil. Eu te entendo. Estou, também, exausta. Os fatos estão aí, escancarados, evidentes. A CPMI do INSS e o escândalo do Banco Master jogaram no ventilador a enorme teia de corrupção que se espraia por todos os poderes e instituições dessa nação…e, com tudo iso – ou melhor, APESAR de tudo isso – nada aconteceu. NADA.
Em paralelo, lutamos, diariamente, contra regulamentações de toda ordem, com o objetivo único de enfiar goela abaixo uma agenda ideológica. Sério, eu não aguento mais tentar explicar que mulher é quem carrega XX e, principalmente, que ao dizer isso eu não estou sendo preconceituosa, mas, apenas, que estou escorada na ciência (aquela mesma que, na época da pandemia, diziam que o pessoal de direita negava!).
Eu estou, realmente, de “saco cheio” (cuidado, essa expressão poderá dar cadeia, em breve). Aí me pego pensando… o que explica alguém olhar para fatos, dados, evidências — e simplesmente ignorar tudo isso???
Não é falta de informação. Não é desatenção. E, na maioria das vezes, também não é falta de inteligência. Essa cegueira seletiva tem nome: chama-se dissonância cognitiva, um conceito clássico da psicologia formulado por Leon Festinger, em 1957, e que continua atual (mais do que nunca, na verdade).
Explico: trata-se do desconforto mental que surge quando a realidade entra em conflito com aquilo em que acreditamos. Tipo, você tem uma crença, por anos. Pela vida inteira. Você realmente criou a certeza de que, suponhamos, teu marido te ama. Porém, uma amiga vem e conta que ele tem um caso. Mostra uma foto. Você não só não acredita, como ainda briga com a amiga que quis te proteger! “Invejosa”, pensa. Eu sei, já vi esse filme diversas vezes – por isso, não conto mais sobre traições conjugais, aliás, mas não é esse o ponto.
Vamos lá. O cérebro humano, por um motivo básico de sobrevivência emocional, tende a evitar esse desconforto – a dor da traição de uma crença “furada”- a qualquer custo. É uma questão de sobrevivência. O problema é a forma como ele faz isso: em vez de revisar a crença e tentar evoluir a partir do erro, ele distorce a interpretação da realidade para preservar a própria coerência interna. Não é um erro lógico apenas — é um mecanismo psicológico de autoproteção!
É MUITO importante que se entenda que isso não é uma teoria abstrata. Um dos experimentos mais conhecidos da psicologia, conduzido pelo próprio Festinger e por James Carlsmith, demonstrou exatamente isso: participantes que foram levados a mentir sobre uma tarefa chata passaram, posteriormente, a acreditar que ela era interessante — não porque fosse, mas porque precisavam alinhar sua percepção com o próprio comportamento. O cérebro ajusta a narrativa para reduzir o desconforto. Simples assim.
Agora entra um conceito complementar que é essencial para entender por que isso se perpetua: o viés de confirmação. Estudos clássicos conduzidos por Charles Lord, Lee Ross e Mark Lepper demonstraram que não apenas buscamos informações que confirmem aquilo em que já acreditamos, como também interpretamos dados neutros de forma enviesada para sustentar nossa posição. Ou seja: não é só ignorar o que contradiz — é reorganizar a realidade para que ela continue fazendo sentido dentro da nossa crença. E, pior, quanto mais informação recebemos, mais convictos podemos nos tornar.
Décadas depois, isso foi amplificado pelo ambiente digital. Pesquisas do Massachusetts Institute of Technology mostraram que informações falsas se espalham mais rápido e alcançam mais pessoas do que as verdadeiras, justamente porque acionam emoções mais intensas. E emoção, como sabemos, é o combustível perfeito para manter crenças intactas — mesmo quando elas entram em choque com a realidade.
Agora, vamos sair da teoria e olhar para o Brasil real (e não para o casamento alheio). Você quer um exemplo concreto, recente, quase didático, de dissonância cognitiva em ação? Olha para o desfecho da CPMI do INSS. Estamos falando de uma comissão criada para investigar fraudes bilionárias contra aposentados — dinheiro desviado de quem trabalhou a vida inteira. Um tema que, em qualquer sociedade minimamente funcional, deveria gerar indignação transversal, pressão popular e cobrança institucional severa.
Mas o que vimos foi outra coisa: disputas narrativas, responsabilizações seletivas e, talvez o mais bizarro, uma reação social muito aquém da gravidade do problema. E por quê? Porque, para uma parcela significativa da população, reconhecer a dimensão do escândalo exigiria algo muito mais difícil do que opinar: imporia rever crenças, admitir erros de julgamento, questionar figuras e estruturas previamente defendidas. Então, o mecanismo entra em ação. Minimiza-se. Relativiza-se. Desvia-se o foco. Ou simplesmente ignora-se. E, obviamente, o problema não é falta de informação, mas excesso de conflito interno! A realidade não é necessariamente negada de forma explícita; ela é rebaixada até deixar de ameaçar a narrativa que sustenta a identidade daquela pessoa.
Percebe o tamanho do problema? No fundo, não estamos lidando apenas com ideias. Estamos lidando com pertencimento, com identidade, com posicionamento moral. E mudar de ideia, nesse contexto, deixa de ser um exercício intelectual e passa a ser, para muitos, uma ruptura interna.
Estudos em neurociência, como os conduzidos por Drew Westen, mostram exatamente isso: quando crenças profundas são desafiadas, áreas do cérebro associadas à emoção e à defesa são ativadas, enquanto as regiões ligadas ao raciocínio lógico perdem protagonismo. Ou seja, a reação não é “deixa eu pensar melhor”. É “preciso me proteger”. Isso explica por que estamos vivendo uma era de debates improdutivos, polarização crescente e uma sensação coletiva — cada vez mais comum — de que nada acontece, de que ninguém é responsabilizado, de que falar parece inútil.
Ai, a gente se pega perguntando o que fazer. A resposta não é nada confortável, tá? Porque não é com mais dados que vamos convencer quem quer estar em negação. Quem está imerso em dissonância cognitiva não está operando prioritariamente no campo racional. Portanto, insistir apenas em informação tende a falhar — ou, pior, até reforçar a crença inicial.
O enfrentamento exige outro caminho. Exige consistência de comportamento, porque o exemplo reduz resistência. A palavra ensina, mas o exemplo arrasta, lembra?
Nossa missão exige perguntar, porque pensar é menos ameaçador do que ser confrontado. Exige exposição gradual a contradições, porque rupturas bruscas geram defesa imediata. E, acima de tudo, exige maturidade emocional para não entrar na lógica da reação impulsiva — porque a histeria só alimenta exatamente aquilo que se pretende combater. Por fim, exige, sem dúvida alguma, mudar a cultura. E essa é a estratégia que exigirá empenho político, também.
Será doloroso e difícil, mas não mais que a dor de ver a bancada do PT aplaudir, feliz, o fim de uma comissão que tinha por objetivo esclarecer a maior fraude da história do país foi um tapa na nossa cara.
Ainda assim,nem todo mundo vai mudar. E tudo bem. O objetivo não é convencer todos, mas manter a lucidez quando a confusão vira regra. E, claro, retomar a moralidade mínima que se espera de uma sociedade. Mínima. Isso não pode ser pedir muito!
O maior risco que enfrentamos hoje não é a ignorância. É a recusa ativa em reconhecer a realidade quando ela ameaça aquilo que queremos acreditar. Uma sociedade que troca verdade por conforto emocional não colapsa de uma vez. Ela se deteriora lentamente, decisão por decisão, narrativa por narrativa, autoengano por autoengano.
Pasito, pasito, como sempre digo. Até que a realidade — ignorada por tanto tempo — cobra o preço. E ela sempre cobra.
Instagram: @ali.klemt
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