Segunda-feira, 20 de julho de 2026
Por Amilcar Macedo | 19 de julho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Há datas que nos convidam a olhar para trás. Outras nos fazem compreender melhor o presente. O dia 20 de julho, quando se comemora o nascimento de Alberto Santos-Dumont, reúne essas duas dimensões. Recordamos o homem que ajudou a transformar um dos mais antigos sonhos da humanidade em realidade, mas também somos levados a refletir sobre aqueles que, diariamente, mantêm vivo esse legado: os homens e mulheres da Força Aérea Brasileira.
A história costuma guardar Santos-Dumont ao lado do 14-Bis, do chapéu panamá e das fotografias em Paris. É justo. Afinal, foi ali que um brasileiro demonstrou ao mundo que o voo controlado de uma máquina mais pesada que o ar deixara de pertencer ao terreno da imaginação. Mas limitar sua memória a esse instante seria esquecer algo ainda mais importante: o espírito que orientava sua obra.
Santos-Dumont acreditava no conhecimento como instrumento de progresso. Publicava seus projetos, discutia soluções técnicas com outros pesquisadores e nunca cultivou o segredo como forma de poder. Via a ciência como patrimônio da humanidade. Talvez por isso sua figura continue despertando admiração muito além das inevitáveis controvérsias históricas sobre a primazia da invenção do avião. Sua grandeza não repousa apenas na máquina que voou, mas na forma como compreendia a própria finalidade do inventar.
É justamente aí que sua trajetória encontra a da Força Aérea Brasileira.
A Constituição lhe atribui a defesa do espaço aéreo nacional. É uma missão indispensável à soberania do Estado. Mas a percepção que a sociedade brasileira construiu sobre a FAB foi sendo moldada também por inúmeras outras missões, quase sempre realizadas longe das câmeras.
Quando enchentes devastaram o Rio Grande do Sul, aeronaves militares transportaram mantimentos, equipes de resgate e esperança para milhares de famílias. Antes disso, durante a pandemia, aviões da Aeronáutica cruzaram um país de dimensões continentais levando respiradores, vacinas, medicamentos e pacientes. Em operações internacionais, brasileiros surpreendidos por guerras ou crises humanitárias encontraram nas aeronaves da FAB o caminho seguro de volta para casa. São imagens que desaparecem rapidamente do noticiário, mas permanecem na memória de quem foi alcançado por elas.
Essa vocação para servir acompanha a instituição desde muito antes.
Na Segunda Guerra Mundial, os pilotos do Primeiro Grupo de Aviação de Caça escreveram um dos capítulos mais honrosos da participação brasileira no conflito. Operando nos céus da Itália, enfrentaram condições extremamente adversas e conquistaram o respeito dos aliados pela competência e pela coragem demonstradas em combate. Seu lema — “Senta a Pua!” — tornou-se parte da história militar brasileira, não como exaltação da guerra, mas como expressão da disposição de cumprir a missão confiada pelo País.
Em tempos de paz, outra missão talvez represente ainda melhor o verdadeiro significado da Aeronáutica: integrar um território continental. Desde os primeiros voos do Correio Aéreo Nacional, milhares de brasileiros passaram a perceber que havia lugares onde apenas uma aeronave conseguia chegar. Correspondências, remédios, alimentos, profissionais de saúde, urnas eleitorais, apoio a comunidades indígenas e ribeirinhas. A aviação deixou de ser apenas um feito tecnológico para transformar-se em presença concreta do Estado onde a distância parecia intransponível.
Essa talvez seja a maior homenagem que a Força Aérea presta, diariamente, ao seu Patrono.
Santos-Dumont sonhava com o voo. A FAB fez dele um instrumento de proteção, integração e solidariedade. Entre uma experiência realizada nos arredores de Paris, em 1906, e uma aeronave pousando hoje em uma pista improvisada na Amazônia, existe mais do que um século de evolução tecnológica. Existe uma mesma ideia: a de que voar somente encontra sentido quando serve às pessoas.
Vivemos uma época em que a tecnologia avança numa velocidade impressionante. Fala-se em aeronaves não tripuladas, inteligência artificial, sistemas autônomos e novos desafios para a defesa aeroespacial. Tudo isso transformará profundamente a aviação. Mas nenhuma inovação substituirá aquilo que sempre constituiu o verdadeiro patrimônio da Força Aérea Brasileira: o preparo de seus profissionais, o espírito de missão e a consciência de que servir ao País exige competência técnica, disciplina e, sobretudo, compromisso com a vida humana.
Ao celebrar o nascimento de Alberto Santos-Dumont, prestamos uma homenagem merecida ao Patrono da Aeronáutica. Mas celebramos também uma instituição que soube preservar o sentido mais nobre de seu legado. Porque as asas que um dia nasceram da curiosidade de um inventor brasileiro continuam cruzando os céus. Agora, não para provar que o homem pode voar, mas para lembrar, todos os dias, que o verdadeiro valor do voo está no serviço prestado à Nação.
Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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