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Colunistas O delírio coletivo de nossa sociedade

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 (Foto: Alex Ferro/COP30)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Estamos vivendo um período que só pode ser descrito como um delírio coletivo. A sensação é de que a realidade se fragmentou em milhares de pequenas bolhas digitais, cada uma com sua própria versão dos fatos, sua própria “verdade” fabricada. A desinformação, que se espalha com velocidade maior do que qualquer vírus, tornou-se um problema de saúde pública. Pesquisas recentes apontam que a exposição constante a notícias falsas e narrativas manipuladas está diretamente ligada ao aumento de ansiedade, estresse e até depressão em populações inteiras. Não é exagero dizer que estamos diante de uma epidemia silenciosa, que corrói a confiança social e mina nossa capacidade de convivência.

Essa experiência me veio à mente quando retornei de Belém do Pará, após participar da COP30. A cidade estava preparada, organizada, vibrante, e o povo, hospitaleiro como poucos. Em cada esquina, um sorriso, um agradecimento por estar ali. Belém se mostrou uma das cidades mais belas e acolhedoras que já visitei. Mas, ao regressar, fui surpreendido por perguntas carregadas de preconceito: “Sobreviveu à COP?”, “Não inalou fumaça?”, “Aguentou o fedor da cidade?”. Essas frases, repetidas sem reflexão, revelam como narrativas distorcidas conseguem se instalar no imaginário coletivo. É frustrante perceber que, mesmo diante de uma experiência tão rica, a percepção de muitos foi moldada por informações enviesadas que circulam nas redes. Eis o poder da desinformação: ela cria imagens falsas que obscurecem a realidade.

A COP30, claro, teve seus problemas, mas foi um marco. Nunca mais uma conferência será a mesma depois de passar pelo Brasil. Havia uma harmonia palpável entre povos, culturas e idiomas. Bastava um olhar, um cumprimento, um sorriso para sentir que estávamos unidos por uma causa maior. Essa é a essência do encontro: trazer vozes diversas, da sociedade civil à iniciativa privada, para discutir o futuro do planeta. No entanto, os jogos de interesse tentam capturar o evento em narrativas que servem a agendas particulares. É aqui que a desinformação mostra sua face mais perigosa: ela não apenas distorce fatos, mas manipula emoções, divide comunidades e fragiliza consensos.

A história bíblica da Torre de Babel nos ajuda a compreender o momento atual. Naquele tempo, os povos deixaram de se entender porque suas línguas se confundiram. Hoje, vivemos uma Babel digital: algoritmos criam bolhas informacionais, cada uma falando sua própria língua, incapaz de dialogar com as demais. Não existem verdades universais, apenas pontos de vista moldados e amplificados por sistemas que entregam conteúdo sob medida para cada perfil. O resultado é uma sociedade em histeria coletiva, onde a percepção da realidade é cada vez mais subjetiva e manipulável.

A pauta ambiental, discutida na COP, é um exemplo claro dessa disputa de narrativas. A certeza é única: precisamos salvar o planeta de nós mesmos. Explosões solares podem afetar sistemas de comunicação e energia na Terra, mas são fenômenos cósmicos naturais, parte do funcionamento do universo. Diferente disso, a degradação ambiental causada por humanos é uma escolha ética. Não temos mais o direito de nos colocar como protagonistas absolutos. O planeta é anterior a nós, composto por uma biodiversidade que sustenta a vida em múltiplas formas. A histeria coletiva que vivemos, alimentada pela desinformação e pela ilusão de centralidade humana, nos impede de enxergar que somos apenas parte de um ecossistema maior.

O que vi em Belém foi um contraponto a esse delírio: pessoas unidas, conscientes da urgência, dispostas a dialogar. Mas o que ouvi ao voltar foi a prova de que a desinformação continua a corroer nossa percepção. Este texto não pretende trazer verdades absolutas, mas provocar reflexão. O autor não é dono da verdade, mas também não pode se calar diante de tanta futilidade e informações desencontradas. Precisamos reverter esse quadro. O despertar de consciência é urgente: reconhecer que vivemos em bolhas, que nossas percepções são manipuladas, e que só a busca coletiva por diálogo e ética pode nos tirar desse período de delírio coletivo.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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