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Colunistas O diabo, a tentação e as oportunidades

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Parece que basta a vida entrar nos eixos e aparecer um pequeno saldo positivo para surgir alguma coisa tentando bagunçar tudo outra vez

Foto: Divulgação
Parece que basta a vida entrar nos eixos e aparecer um pequeno saldo positivo para surgir alguma coisa tentando bagunçar tudo outra vez. (Foto: Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

A maioria de nós, trabalhadores e empreendedores, vive correndo atrás da máquina. Paga o boleto daqui, empurra uma conta dali, administra as despesas da empresa, sustenta a família e, quando o mês aperta, faz aquela engenharia que nenhum curso de economia ensina — joga uma conta para o mês seguinte e torce para que, até lá, algum dinheiro apareça.

Para milhões de brasileiros, equilíbrio financeiro não significa ter dinheiro sobrando. Significa apenas chegar ao dia 30 sem que ninguém telefone cobrando.

Mas você já percebeu uma coisa curiosa? Parece que basta a vida entrar nos eixos e aparecer um pequeno saldo positivo para surgir alguma coisa tentando bagunçar tudo outra vez.

Às vezes, penso que deve existir, em algum lugar do inferno, uma Central Satânica de Monitoramento Financeiro — e da paz e do sossego do sujeito.

Imagino uma enorme sala cheia de computadores e demônios acompanhando nossas contas bancárias em tempo real. De repente, toca um alarme.

— Excelência! Temos um problema!

Satanás levanta os olhos:

— O que aconteceu?

— O Roberto, senhor! Depois de três anos no cheque especial, finalmente pagou tudo. Detectamos R$ 5.327 positivos na conta.

— Positivos? Há quanto tempo?

— Quatro horas e dezessete minutos.

— Isso é inadmissível! Mandem uma promoção de televisão de 75 polegadas! Redobrem as propagandas do jogo do tigrinho e mandem aquele sujeito que tem uma moto para vender de barbada, com documento adulterado, procurar por ele imediatamente!

E assim começa…

Mas algumas situações exigem tratamento especial.

Quando o cidadão demonstra resistência, o próprio capiroto entra em ação. Imagine a cena…

Uma limousine preta estaciona diante de sua casa. O motorista abre a porta traseira. Primeiro, aparece um sapato italiano caríssimo.

Depois, surge um homem elegantíssimo, vestindo terno Armani, sobretudo Gucci e chapéu Panamá preto.

Numa das mãos, um charuto cubano. Na outra, um whisky escocês de 50 anos. Ao seu lado, uma mulher simplesmente deslumbrante sorri para você — uma segunda modalidade de tentação…

O miserável é simpático e carismático:

— Meu querido amigo! Soube que as coisas melhoraram. Parabéns! E justamente por isso trouxe uma oportunidade que aparece uma única vez na vida…

Curiosamente, essas oportunidades extraordinárias aparecem justamente quando conseguimos guardar algum dinheiro. E quase sempre precisam ser decididas imediatamente.

O sujeito passa cinco anos querendo trocar de carro. Poderia esperar mais seis meses. Mas aparece aquele veículo maravilhoso abaixo da tabela:

— É agora ou nunca!…

Outro finalmente junta R$ 15 mil.

Surge alguém:

— Cara, apareceu um terreno imperdível pela metade do preço. Mas precisa fechar amanhã!

Meses depois, ele descobre uma pendência documental.

Satanás acende outro charuto…

Missão cumprida!

Mas existe aquele sujeito mais resistente.

De volta à Central Satânica:

— Chefe! O Marcelo juntou R$ 8 mil e não caiu em nenhuma oferta!

— Como assim?

— Recusou carro, TV, terreno e investimento.

O capiroto perde a paciência:

— Então, chamem Mamom, o especialista! (espírito de miséria) E acionem o protocolo Amigo Desesperado!

O telefone toca:

— Cara, pelo amor de Deus, preciso de R$ 3 mil. Estou devendo para um agiota e, se não pagar amanhã, os caras vão me matar!

O sujeito empresta. Na Central, alguém atualiza a planilha:

— Excelência, ainda sobraram R$ 5 mil.

Novo telefonema:

— Eu jamais pediria isso, mas minha mãe, meu pai etc. estão precisando de um remédio caríssimo! Você é minha última esperança!

— Chefe! Ainda sobraram R$ 3.500!

Satanás bate na mesa:

— Soltem o cunhado empreendedor!

Poucas horas depois:

— Irmão, apareceu uma oportunidade fantástica. Preciso só de R$ 3 mil. Em 30 dias te devolvo quatro. Pode passar no cartão que eu pago as parcelas… Daí você empresta…

Só que existe uma razoável possibilidade de o cunhado desaparecer junto com o empreendimento.

As luzes da Central Satânica se apagam e os funcionários vão satisfeitos para casa.

É claro que estou brincando com essas analogias e metáforas. Existem emergências verdadeiras, excelentes oportunidades e ajudar alguém que realmente precisa pode ser uma das melhores coisas que fazemos com aquilo que conquistamos.

O problema começa quando transformamos a urgência dos outros na nossa urgência.

Há pessoas que passaram tanto tempo vivendo no vermelho que parecem não saber viver no azul.

Dinheiro parado incomoda…

É preciso comprar alguma coisa, emprestar para alguém ou aproveitar aquela chance “única”.

E, assim, depois de anos fazendo sacrifícios para encontrar equilíbrio, bastam alguns minutos de empolgação para voltar ao ponto de onde levamos tanto tempo para sair.

Talvez precisemos aprender uma coisa muito simples: nem toda oportunidade perdida representa prejuízo.

Às vezes, o melhor negócio da nossa vida foi justamente aquele que não fizemos.

Se você viveu dez anos sem aquele bem, por que precisa decidir em 24 horas?

A ansiedade exige resposta imediata. Talvez o verdadeiro luxo não seja comprar. Talvez seja poder comprar e escolher esperar… Imagino, então, o capiroto percebendo que, desta vez, perdeu.

Ele dá a última tragada no charuto, termina seu whisky e caminha contrariado em direção à limousine.

Antes de entrar, ainda tenta:

— Tem certeza? É a última oportunidade…

Você sorri:

— Tenho. Se for realmente bom para mim, não preciso perder minha paz para conseguir.

A limousine desaparece na esquina, procurando outra vítima com saldo positivo.

Isso não significa que não devemos investir ou ajudar alguém, mas que precisamos entender que paz financeira também é patrimônio.

E, afinal, como diria meu avô:

— Não procure sarna para se coçar, ou você pode acabar encontrando…

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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