Quando crianças víamos imagens nas nuvens e a cada mudança surgiam figuras diferentes. Lembram?
Este fenômeno é chamado de pareidolia, considerado absolutamente normal e saudável.
Guarde isso.
Diante da enorme crise institucional nos Poderes da República, lembrei-me de um filme de Werner Herzog de 1974 chamado O enigma de Kaspar Hauser.
O filme se passa na Alemanha em 1928 e conta a história de um menino que viveu isolado em um porão até os 16 anos.
Numa madrugada, o tutor do rapaz retira-o do cativeiro e o leva para uma pequena cidade.
Ao amanhecer a população fica perplexa com a presença de Kaspar Hauser paralisado segurando uma carta de “instruções” em suas mãos.
Acolhido por uma família, depois de dois anos, Kaspar amplia seu vocabulário ensinado pela matriarca e por um padre.
Aprende música e jardinagem , entretanto, é um fracasso em compreender as convenções da época, principalmente as ligadas as regras sociais, ciências e a religião.
A família procura um professor de lógica para avaliar a capacidade de raciocínio do rapaz.
O professor pergunta a Kasper:
-
Imagine que existem duas aldeias.
Na aldeia A as pessoas sempre dizem a verdade.
Na aldeia B as pessoas sempre mentem.
Então agora você está em uma encruzilhada e encontra uma pessoa de uma dessas aldeias.
Você pode fazer apenas uma pergunta para descobrir de qual aldeia ela pertence.
Qual seria essa pergunta?
Kaspar fica olhando para o professor sem responder.
O professor demonstrando todo seu saber da lógica abstrata, responde de como deveria ser a pergunta condicional dupla :
-
Se eu lhe perguntasse se você é da aldeia da verdade, o que você responderia?
A resposta obrigatoriamente revelaria a sua origem.
Mas Kaspar desconhece as regras da lógica formal.
E diz :
-
Eu perguntaria se ele é um sapo.
-
Porque eu sei o que é um sapo.
O professor não aceita a resposta de Kaspar e argumenta que a resposta não é válida porque não foi baseada nas regras predeterminadas da lógica e da matemática formal, mas sim, em um fato externo fora das normas.
Esta situação se assemelha ao que os brasileiros estão passando nestes tempos.
O cidadão comum tem seu senso de compreensão e justiça através de experiências que nascem do senso comum e da lógica empírica de suas vivências.
Por outro lado, existe o formalismo e regulamentos administrativos, jurídicos e da política que permeiam em chicanas e artimanhas jurídicas e um festival de retóricas.
Estes dois mundos têm lógicas distintas e desenvolvem comportamentos e valores muito diferentes que dividem o mesmo espaço.
Kaspar cresceu isolado dos condicionamentos sociais e enxerga o óbvio, assim como os brasileiros comuns que desconhecem os meandros do direito e da política.
Exemplo:
No raciocínio lógico de Kasper, não querer ou não proceder investigações demonstra de antemão a certeza que há algo errado.
Da mesma forma o cidadão comum, já percebeu que para as autoridades o que menos importa é a verdade.
As desculpas são filigranas do formalismo jurídico e de jurisprudências que vão se alterando com interpretações criativas da parte interessada.
E assim … duas nuvens passando pelos céus do Brasil, uma diz a outra:
-
Olha ! Olha !
– O povo lá embaixo com formato de trouxas!
Rogério Pons da Silva
