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Colunistas O enigma de Kaspar Hauser

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Cena do filme O enigma de Kaspar Hauser (1974) dirigindo por Werner Herzog. (Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Quando  crianças  víamos imagens nas nuvens e a cada mudança surgiam  figuras diferentes. Lembram?

Este fenômeno é chamado de pareidolia,  considerado absolutamente normal e saudável.

Guarde isso.

Diante da  enorme crise institucional  nos Poderes da República, lembrei-me  de um    filme de Werner Herzog de 1974 chamado  O enigma de Kaspar Hauser.

O filme se passa  na Alemanha em 1928 e conta a história de um  menino que viveu isolado em um porão até os 16 anos.

Numa  madrugada, o tutor do rapaz retira-o do cativeiro e o leva para  uma pequena cidade.

Ao amanhecer a população fica perplexa com a presença  de Kaspar Hauser paralisado segurando  uma carta de “instruções” em suas  mãos.

Acolhido por uma família, depois de  dois anos, Kaspar  amplia seu vocabulário ensinado pela matriarca e por um padre.

 Aprende música e jardinagem , entretanto, é um fracasso em compreender as convenções da época, principalmente as ligadas as regras sociais, ciências  e a religião.

A família procura um professor de lógica  para avaliar a capacidade de raciocínio do rapaz.

O  professor  pergunta a Kasper:

  • Imagine que existem duas aldeias.

Na aldeia A as pessoas sempre dizem a verdade.

Na aldeia B as pessoas sempre mentem.

Então agora você está em uma encruzilhada e encontra uma pessoa de uma dessas aldeias.

Você pode  fazer apenas uma pergunta para descobrir de qual aldeia ela pertence.

Qual seria essa pergunta?

Kaspar fica olhando para o professor sem responder.

O professor demonstrando todo seu saber  da lógica abstrata,   responde de como deveria ser a pergunta   condicional dupla   :

  • Se eu lhe perguntasse se você é da aldeia da verdade, o que você responderia?

A  resposta obrigatoriamente revelaria a sua origem.

Mas Kaspar desconhece as regras da lógica formal.

E diz :

  • Eu perguntaria se ele é um sapo.

  • Porque eu sei o que é um sapo.

O professor não aceita a resposta de Kaspar e argumenta que a resposta não é válida porque não foi baseada nas regras predeterminadas da lógica e da matemática formal, mas sim, em um fato externo fora das normas.

Esta situação se assemelha ao que os brasileiros estão passando nestes tempos.

O cidadão comum tem seu senso de compreensão e justiça através  de  experiências que nascem do senso comum e da lógica empírica de suas  vivências.

Por outro lado, existe o formalismo  e regulamentos administrativos, jurídicos e da política que permeiam em chicanas e artimanhas jurídicas e um festival de retóricas.

Estes dois mundos têm lógicas distintas e desenvolvem comportamentos e valores muito diferentes  que dividem o mesmo espaço.

Kaspar  cresceu isolado dos condicionamentos sociais e enxerga o óbvio,   assim como os brasileiros comuns  que desconhecem os meandros do direito e da política.

 Exemplo:

No raciocínio lógico de Kasper, não querer   ou não proceder  investigações  demonstra de antemão a certeza que há algo errado.

 Da mesma forma o cidadão comum, já percebeu que para as autoridades  o que  menos importa   é a verdade.

As desculpas são  filigranas do formalismo jurídico e de  jurisprudências que vão se alterando com  interpretações criativas  da parte interessada.

E assim … duas nuvens  passando  pelos  céus  do  Brasil, uma diz  a outra:

  • Olha !  Olha !

– O povo lá embaixo com  formato de trouxas!

Rogério Pons da Silva 

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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3 Comentários
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Walter Treptow
14 de setembro de 2026 10:25

A estupidez não significa atitudes, gestos, ou ações individuais em cada ser, mas sim, não pretender pensar por si próprio. Desejar que em todo tempo, alguém possa pensar e dizer como tudo deve acontecer. Atualmente, ainda existem líderes que arrastam multidões estúpidas que não conseguem pensar por elas mesmas.
Parabéns pelo texto Rogério….

João Carlos Gabrijelcic
13 de setembro de 2026 13:08

Muito bom

Thais Cidade
13 de setembro de 2026 08:08

Excelente visão, Rogério! O brasileiro já dormiu demais, hora de acordar e deixar de ter o formato identificado pela nuvem, mencionada no artigo!

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