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Colunistas O alerta das inteligências artificiais e o peso das profecias

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(Foto: Reprodução)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Na última semana, uma carta assinada pelo fundador da Microsoft reacendeu o debate sobre os riscos existenciais da inteligência artificial. Não se trata de um exagero retórico: o documento aponta para a ameaça real que estamos vivendo com os avanços acelerados da IA, que já não se limitam a automatizar tarefas, mas começam a redefinir os contornos da própria vida em sociedade.

Esse alerta ecoa em outras vozes. Yuval Noah Harari, em seu livro Nexus, discute como a fusão entre biotecnologia e inteligência artificial pode criar uma nova ordem mundial, em que o controle da informação e da biologia humana se torna o verdadeiro campo de batalha. Harari não fala em apocalipse, mas em uma transformação tão radical que pode tornar obsoletas as instituições que conhecemos.

Também recentemente nos despedimos do filósofo polonês Zygmunt Bauman, falecido aos 92 anos, cuja obra sobre a “modernidade líquida” nos ajuda a compreender a fragilidade das estruturas sociais diante de mudanças rápidas e imprevisíveis. Embora não tenha escrito especificamente sobre IA, sua visão sobre a fluidez e a insegurança da vida contemporânea se encaixa perfeitamente nesse cenário.

Outros pensadores e inovadores já haviam levantado bandeiras vermelhas. Stephen Hawking alertou que a inteligência artificial poderia ser “o fim da raça humana” se não fosse controlada. Elon Musk, cuja biografia estudei há mais de uma década, também vem repetindo que a humanidade corre risco de extinção pelo avanço descontrolado da IA. Musk está longe de ser um filósofo, mas sua posição como empreendedor visionário dá peso às suas palavras.

Agora, não são apenas indivíduos que alertam. As Nações Unidas também se manifestaram: em relatórios recentes, classificaram a IA como um possível “risco existencial” para a humanidade. O secretário-geral António Guterres pediu que países “não percam tempo” e criem regras compartilhadas, pois quanto mais a IA avança sem governança, menos controle governos e pessoas terão. O Alto Comissário de Direitos Humanos, Volker Türk, reforçou que é urgente estabelecer “linhas vermelhas” globais para evitar usos militares e manipulações sociais.

Essas teorias do fim dos tempos não são novidade. Já escrevi sobre A Leitura do Código do Tempo, artigo onde reflito como previsões sobre o futuro foram interpretadas ao longo da história, muitas vezes em textos religiosos que falavam de juízos finais e apocalipses. O que muda agora é que as previsões não parecem mais tão distantes ou metafóricas: elas se apoiam em dados concretos, em algoritmos que já estão moldando nossas escolhas, nossas relações e até nossa saúde mental.

E aqui está um ponto crucial: como lidar com essas sensações? O medo do fim dos tempos, quando alimentado por discursos de cientistas, líderes globais e instituições como a ONU, pode gerar ansiedade coletiva. A saúde mental das pessoas é afetada pela percepção de que vivemos em uma contagem regressiva invisível. Diferente das antigas profecias, que podiam ser relativizadas como metáforas ou crenças, hoje os alertas vêm acompanhados de gráficos, relatórios e demonstrações tecnológicas palpáveis.

No entanto, é preciso cuidado para não transformar o medo em paralisia. A história mostra que a humanidade sempre conviveu com cenários de ameaça: guerras nucleares, crises climáticas, pandemias. O que nos manteve vivos foi a capacidade de agir, de criar soluções e de reinventar o futuro. A inteligência artificial, apesar dos riscos, também abre portas para avanços médicos, energéticos e sociais que podem melhorar a vida de bilhões de pessoas.

O desafio é equilibrar o realismo dos alertas com a esperança de que podemos construir mecanismos de controle e ética. Isso exige políticas públicas, cooperação internacional e, sobretudo, uma consciência coletiva de que não se trata apenas de inovação tecnológica, mas de sobrevivência cultural e humana.

Talvez o maior ensinamento desses alertas seja nos lembrar de que o futuro nunca esteve garantido. A sensação de fim dos tempos acompanha a humanidade desde os primeiros mitos, e cada geração acreditou viver o seu apocalipse particular. O que muda é a forma como escolhemos reagir.

Não há conclusão definitiva, porque o futuro é aberto. Mas há uma certeza leve: enquanto houver debate, reflexão e ação, ainda estaremos escrevendo nossa própria história. E talvez seja justamente essa consciência — de que o fim nunca é dado, mas sempre negociado — que nos permita viver com menos medo e mais responsabilidade.

Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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