Quarta-feira, 05 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 24 de janeiro de 2020
O presidente do banco Itaú Unibanco, Candido Bracher, sai do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), aliviado com os bons resultados apresentados pela equipe econômica. Apesar de não ver um “big bang” nos investimentos estrangeiros em 2020, diz acreditar que o cenário é de expansão dos negócios diante da nova realidade de juro baixo no Brasil.
No entanto, Bracher ficou preocupado com a visão, já recorrente entre os investidores estrangeiros, especialmente europeus, de que o Brasil não é um país ambientalmente correto.
“É muito difícil formar um juízo sobre o que acontece no meio ambiente, porque há muita informação desencontrada. Mas, do ponto de vista de comunicação, estamos muito mal. Em qualquer fórum aqui na Europa o Brasil é visto como um mau exemplo de proteção ambiental”, afirma.
No terreno político, também ecoam nos escritórios das empresas no exterior ruídos vindos de Brasília, que alimentam desconfianças sobre a estabilidade política brasileira. Nesse campo, porém, Bracher diz ter bons argumentos para tranquilizá-los.
“Tivemos uma migração para os polos em termo de discussão ideológica. E, sim, posso contar que houve essa migração para os polos no Brasil, mas também que as instituições estão suportando bem esse debate e permitindo que ocorra dentro de um clima de ordem”, diz ele. “O que eu tenho prazer te dizer, acreditando no que estou dizendo, e eles ficam contentes de ouvir, é que o Congresso adquiriu uma outra dimensão, uma proatividade, nesse novo governo.”
1) No ano passado, após a eleição, havia a expectativa de que o investidor estrangeiro entraria com mais força. Ele entrou, mas menos que o esperado, sob qualquer ponto de vista, tanto na Bolsa, quanto nos investimentos empresariais. Qual é o cenário para 2020?
A redução da taxa de juros fez com que o Brasil deixasse de ser o país do carry trade. Carry trade é quando você fica vendido na moeda que paga taxa de juro baixa, no caso dólar, e compra moeda que paga uma taxa de juro alta, que era o real. Durante muitos anos o Brasil foi o paraíso do carry trade. Ainda que exista um diferencial entre taxa de juro brasileira e americana, a nossa da taxa de juro doméstica é outra. O Brasil não é mais o país do carry trade.
Boa parte dos recursos que deixaram o país nesse tempo foi em função da redução da taxa de juros. Eram recursos financeiros de curto prazo, bons recursos, mas era natural que saíssem. E teve o efeito positivo de impedir uma apreciação excessiva do real. A gente sempre temeu que o equilíbrio macroeconômico fosse trazer um grande influxo de investimentos financeiros e, com isso, uma apreciação do real, enfraquecendo o cenário externo: teríamos um déficit em conta corrente muito mais elevado. De fato, houve aumento do déficit em conta corrente, mas nada tão preocupante.
2) No aspecto ambiental também estamos bem diante dos investidores?
É muito difícil formar um juízo sobre o que acontece no meio ambiente, porque há muita informação desencontrada. Mas, do ponto de vista de comunicação, estamos muito mal. Em qualquer fórum aqui na Europa, o Brasil é visto como um mal exemplo de proteção ambiental.
3) E isso preocupa os investidores?
Preocupa, e ainda bem que preocupa. Acho ótimo porque nos motiva a fazer melhor e certamente precisa também nos motivar a comunicar melhor o que fazemos. Não dá para cuidar só do equilíbrio macroeconômico e não se preocupar em como a gente trata o meio ambiente e como comunica o que faz.
O que vejo de positivo é que isso não é só uma coisa de governo. Eu vejo aqui na Europa muitas empresas tomando iniciativas, se propondo a cumprir metas ambientais em suas atividades. Existe uma concertação, uma articulação com praticamente todos os chefes de empresas. Há uma tomada consciência.
4) O que mais preocupa esses investidores que tratam de questões ambientais?
Os focos de incêndios na Amazônia são visivelmente o que mais preocupa. E não adianta dizer que tem fogo na Austrália. Isso aqui não é uma competição. Falar ‘ahh você reclama de mim, mas tem fogo na Austrália’ não é justificativa. O mundo é um só, todo mundo respira o mesmo ar, mas cada um cuida de si. A Amazônia é nossa e é a gente que precisa cuidar dela.
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