Sexta-feira, 03 de Abril de 2020

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Mundo Crise política e renúncias de ministras afetam a popularidade do jovem primeiro-ministro do Canadá

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, em evento no fim de fevereiro O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, em evento no fim de fevereiro. (Foto: Reprodução)

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, prometeu uma nova abordagem da política, baseada em abertura, decência e liberalismo. Agora ele é parte de um escândalo que envolve acusações de negócios escusos e táticas prepotentes, tudo para apoiar uma empresa canadense acusada de pagar propina ao governo líbio na época do ditador Muammar Gadhafi.

Os jornais canadenses estão cheios de indignação, e os partidos de oposição pedem a renúncia de Trudeau. As eleições serão só daqui a sete meses, mas alguns membros do partido governante, o do próprio Trudeau, temem que o escândalo tenha dado aos partidos de oposição um rico material de campanha contra seu líder, que prometeu “caminhos ensolarados” na política.

“Isto é um enorme golpe para a marca pessoal de Justin Trudeau e sua promessa de fazer política de um modo diferente”, disse Shachi Kurl, diretora-executiva da firma de pesquisas sem fins lucrativos Angus Reid Institute, sediada em Vancouver (oeste do país). Ela acrescentou: “Esse brilho não foi danificado ou riscado. Foi completamente apagado”.

O caso gira em torno de acusações de que a empresa multinacional de engenharia SNC-Lavalin, baseada em Quebec, pagou 47,7 milhões de dólares canadenses (R$ 135,5 milhões) em propinas a autoridades da Líbia para ganhar contratos lá e fraudou o governo líbio e seus órgãos em 129,8 milhões de dólares canadenses.

O primeiro-ministro e seus assessores foram acusados de pressionar a ministra da Justiça na época, Jody Wilson-Raybould, para suspender o inquérito criminal contra a companhia porque uma condenação poderia custar milhares de empregos no Canadá e diminuir as chances políticas de seu Partido Liberal.

Ela não arquivou o inquérito, e em janeiro foi transferida para um cargo inferior no gabinete, o que na opinião de muitos foi uma punição. Depois, deixou o cargo.

O escândalo vem se avolumando lentamente durante semanas, e já provocou a renúncia do principal assessor político de Trudeau e a abertura de uma investigação na Comissão de Ética do Parlamento sobre potenciais conflitos de interesses.

Na quarta-feira (27), Wilson-Raybould compareceu diante da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados, interrompendo semanas de silêncio.

Na televisão ao vivo, ela calmamente descreveu as exigências e “ameaças veladas” que recebeu durante quatro meses do gabinete de Trudeau para aceitar um acordo no caso criminal. “Houve um esforço concertado e sustentado para influenciar politicamente meu papel como secretária de Justiça”, disse Wilson-Raybould, que, como primeira pessoa indígena a ocupar esse prestigioso cargo e a única indígena no gabinete de Trudeau, era um símbolo poderoso do compromisso de seu governo com os direitos das mulheres e dos indígenas.

Trudeau negou que ele ou qualquer pessoa tenha agido de maneira inadequada no trato com Wilson-Raybould. Ele salientou que tem tentado proteger os empregos canadenses, como “os canadenses esperam que seu governo faça”, enquanto respeita as leis do país e a independência do Judiciário.

Mas muito na política são aparências, e a visão parece terrível – um autodeclarado feminista que prometeu uma nova maneira de governar, aberta e transparente, enviando assessores descritos como capangas para pressionar uma mulher indígena na tentativa de dobrá-la.

A nomeação de Wilson-Raybould para ministra da Justiça pareceu para muitos uma prova de que Trudeau falava sério sobre corrigir os erros do país contra sua população indígena e tratá-la como parceira respeitada, como ele prometeu durante a campanha.

Agora esse legado é questionado por causa da transferência de Wilson-Raybould para o cargo de ministra de assuntos dos veteranos, que ela deixou na semana passada.

“Reconciliação também significa respeitar as vozes dos indígenas”, disse Sheila North, uma ex-líder indígena em Manitoba, norte do Canadá. “Toda essa exibição mostrou, afinal, que dinheiro e poder são mais importantes que construir a reconciliação.”

Em seu depoimento, Wilson-Raybould, que foi líder de alto nível de grupos indígenas na costa oeste do Canadá, lembrou ao país que seu governo tem uma história de ignorar a lei quando se trata de povos indígenas, e disse que testemunhou os “impactos negativos” disso em primeira mão.

“Eu venho de uma longa linhagem de matriarcas, e sou uma pessoa que fala a verdade, de acordo com as leis e tradições de nossa Grande Casa”, disse ela, referindo-se ao centro de governança e atividades culturais da nação Kwakwaka’wakw. “Eu sou assim e sempre serei.”

Muitos adversários de Trudeau estão dizendo que toda a controvérsia prova que Trudeau, que nomeou o primeiro gabinete do país com equilíbrio de gêneros, é um “feminista falso” que usa as mulheres, em vez de apoiá-las.

 

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