Sexta-feira, 06 de março de 2026
Por Renato Zimmermann | 5 de março de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Ainda estou depurando e decantando tudo o que vivi na COP30 em Belém. Foram dias intensos, de uma babel de vozes, de roupas vindas de todos os povos, de encontros que só poderiam acontecer em um espaço verdadeiramente global. Estar ali, no coração da Amazônia, foi uma experiência única e profundamente transformadora. Eu não fui apenas espectador: participei, atuei, me engajei no ativismo pela transição energética. E, mesmo agora, sinto que cada memória ainda reverbera dentro de mim.
A COP30 deixou marcas. Apesar de muitos negarem, os resultados foram concretos: documentos oficiais emitidos pela presidência da conferência, reunidos no chamado Pacote de Belém, composto por textos aprovados pelos 195 países presentes. Entre eles, declarações sobre combate ao racismo ambiental, compromissos intergovernamentais sobre posse de terras, manifestos sobre fome e pobreza, além de cartilhas voltadas ao manejo integrado do fogo e à resiliência contra incêndios florestais. Esses documentos são a prova de que, mesmo em meio às tensões, houve avanços.
Mas não posso esconder minhas frustrações. Esta não foi a COP da implementação. O boicote explícito do governo americano e da indústria do petróleo impediu que medidas mais concretas fossem adotadas. O tema central — a transição energética e o fim da dependência dos combustíveis fósseis — foi empurrado para frente, como se o tempo não fosse um recurso escasso. Essa resistência deixou claro o poder ainda exercido por setores que lucram com a destruição do planeta.
É justamente nesse contexto que surge o Mapa do Caminho para a Transição Energética. Diferente das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), que são compromissos formais dentro da UNFCCC e registrados no Acordo de Paris, o mapa é uma iniciativa fora do sistema da ONU, proposta pelo Brasil durante a COP30 e que agora ganha corpo em encontros paralelos. O primeiro deles será realizado na Colômbia, reunindo cerca de 25 países que se alinharam à proposta brasileira. Trata-se de um pacto político e voluntário, que busca acelerar a transição energética por meio de cooperação direta entre países interessados.
De forma didática, o mapa funciona como um roteiro de ação: cada país participante se compromete a compartilhar experiências, coordenar políticas públicas e buscar financiamento para energias renováveis. Não há a rigidez das NDCs, mas há a força de uma aliança política que pretende pressionar os grandes emissores e mostrar que é possível avançar sem esperar pela lentidão das negociações multilaterais. É um espaço de ousadia e liderança, onde o Brasil assume protagonismo ao propor e articular essa agenda.
A importância dessa iniciativa é enorme. Primeiro, porque cria pressão política: ao reunir países dispostos a ir além das negociações formais, o mapa fortalece a cobrança por mais ambição. Segundo, porque promove coordenação prática: permite que os países compartilhem tecnologias limpas, estratégias de financiamento e políticas públicas. Terceiro, porque simboliza liderança brasileira: ao propor e articular essa agenda, o Brasil reafirma seu papel como protagonista da transição energética, especialmente após sediar a COP30 na Amazônia. E, por fim, porque garante continuidade: evita que os avanços da COP30 fiquem apenas nos documentos oficiais, transformando-os em ações concretas e regionais.
Ao olhar para trás, vejo que a COP30 foi um mosaico de conquistas e frustrações. Mas ao olhar para frente, percebo que o mapa do caminho é a ponte entre o que vivemos e o que precisamos construir. Ele é o instrumento que pode transformar a babel de vozes em uma sinfonia coordenada pela sobrevivência do planeta.
Encerrando esta reflexão, lembro que todos os documentos oficiais da COP30 estão arquivados e disponíveis para consulta no site da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Estão lá, acessíveis, como testemunho de que não foi apenas retórica: foram compromissos registrados, que agora precisam ser cobrados e implementados.
Belém nos deu o ponto de partida. O mapa do caminho é a estrada. Cabe a nós, cidadãos e ativistas, garantir que ela seja percorrida até o fim.
(Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética – contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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