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Brasil O MEC estima que cerca de 85% dos professores que dão aulas de inglês para alunos de escolas públicas não dominam o idioma

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Base curricular determina inglês como língua estrangeira a ser ensinada, mas professores não são proficientes. (Foto: Reprodução)

“The book is on the table” (o livro está sobre a mesa) talvez seja a única expressão a compor o repertório linguístico de inglês de boa parte dos brasileiros. Uma realidade muito difícil de ser revertida, levando em consideração a formação dos professores dessa disciplina que atuam na rede pública de ensino. O MEC (Ministério da Educação) estima que em torno de 85% dos docentes que dão aulas de inglês para alunos de escolas públicas não dominam o idioma. A deficiência nos cursos oferecidos pelas universidades e a falta de oportunidades para praticar a língua inglesa são as principais causas do problema.

“Os professores que estão preparados têm oportunidade de intercâmbio. Eles conseguem se inscrever nos editais porque atendem aos requisitos. O problema é o restante, que não consegue sequer entrar na formação continuada. Somente cerca de 15% dos professores que atuam na rede pública nessa disciplina têm proficiência”, afirma Silvia Donnini, diretora de Formação e Desenvolvimento dos Profissionais da Educação Básica do Ministério da Educação.

A formação insuficiente dos docentes da área fica explícita nos dados do Censo da Educação Básica 2017, divulgado em janeiro pelo MEC. Apenas 42% daqueles que lecionam inglês no primeiro segmento do ensino fundamental têm formação adequada para a área. A disciplina é a pior no quesito de adequação docente, que considera professores com licenciatura ou bacharelado com complementação pedagógica na mesma área de atuação. Ou seja, há docentes formados, por exemplo, para dar aulas de português, mas que atuam como professores de inglês. No segundo segmento do fundamental, do 6º ao 9º ano, o índice é um pouco mais alto, mas ainda representa menos da metade dos docentes: 49,2%. Nessa etapa, a disciplina é a segunda pior no que diz respeito à adequação, perdendo somente para artes.

Ter uma formação considerada “adequada” na teoria, no entanto, não significa nenhuma garantia na prática. A professora Amanda, que prefere usar esse nome fictício, cursou Letras com ênfase em língua inglesa em uma universidade particular e, mesmo antes de chegar às salas de aula, não se sentia preparada para ensinar o idioma a alunos mais velhos.

“Durante o curso na universidade, minha turma foi diminuindo consideravelmente. Acompanhar as aulas em inglês era complicado. Os colegas que não tinham muitos conhecimentos do idioma entraram em contato com a coordenação, que obrigou os nossos professores a darem aulas em português. Quem não busca uma formação paralela não tem condição alguma de trabalhar como professor depois”, desabafa.

Por se sentir insegura, ainda na universidade, Amanda procurou um curso de idiomas para complementar a formação. Mesmo assim, encontrou dificuldades quando tentou ensinar inglês para estudantes que já tinham contato com a língua.

Para Silvia Donnini, do MEC, melhorar esse quadro passa por uma reformulação do currículo das universidades: “No Brasil, a formação, em geral, é bastante teórica e menos focada em questões de conversação e proficiência. Isso não corresponde à demanda da prática em sala de aula, que é uma abordagem comunicativa. Precisamos fazer uma revisão do currículo dos cursos de licenciatura e corrigir este problema, que tem sido muito comum. O professor de língua inglesa não é um falante de língua inglesa. Isso faz com que o estudante não tenha uma referência de conversação”.

Essa revisão está na mira do CNE (Conselho Nacional de Educação), instância responsável por fazer as modificações desses parâmetros. Antes disso, é necessário que a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) do ensino médio, prevista para ser entregue ao órgão em março, seja finalizada. A formação das universidades, em geral, prioriza uma abordagem que se distancia, sobretudo, dos novos objetivos traçados pela Base do ensino fundamental, já homologada pelo MEC. O documento, inclusive, aponta o idioma como a língua estrangeira a ser ensinada nas escolas a partir do 6º ano. Antes não havia essa especificação.

“A BNCC assinala uma ênfase maior na conversação e nas questões tecnológicas, e defende que o aluno tenha contato com a língua real, o inglês falado no mundo, não só nos países onde é língua materna”, explica Ivan Cláudio Siqueira, membro do CNE, que participou da confecção da Base relativa ao inglês.

Baixa carga horária

O educador admite, entretanto, que há muitos obstáculos a serem transpostos para garantir que, ao final do ensino fundamental, os alunos tenham uma formação satisfatória no idioma. Um deles é o pouco tempo de aula de língua estrangeira que os alunos têm por semana.

Jodie Gray, diretora de desenvolvimento da English UK, uma associação britânica de centros de ensino de inglês, afirma que tornar o idioma a língua estrangeira a ser ensinada nas escolas é uma decisão importante, mas que precisa vir acompanhada de outras estratégias. Para ela, o treinamento inicial de pequenos grupos poderia ajudar nessa tarefa.

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