Sábado, 27 de junho de 2026
Por Renato Zimmermann | 27 de junho de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A transição energética é um daqueles termos que parecem distantes, mas que na prática significam algo bem simples: trocar a forma como produzimos e consumimos energia, saindo de fontes poluentes como o carvão e o petróleo e migrando para alternativas limpas, como solar, eólica, biometano e hidrogênio verde. É um processo inevitável, porque o planeta não suporta mais o ritmo das emissões de gases de efeito estufa. Mas também é um processo delicado, porque mexe com empregos, impostos e a vida de cidades inteiras.
No Rio Grande do Sul, o governo lançou em 2026 o Plano de Transição Energética Justa. O nome já revela a preocupação: não basta desligar as usinas, é preciso garantir que trabalhadores e comunidades não fiquem para trás. O problema é que o plano prevê manter o carvão até 2043, o que significa quase duas décadas de atraso em relação às metas climáticas. Entidades ambientalistas, como o Instituto Arayara, criticaram duramente essa escolha. Para elas, é impossível falar em neutralidade de carbono até 2050 mantendo o carvão por tanto tempo.
A Arayara, no entanto, não se limita a criticar. Sua proposta é pragmática: redirecionar os subsídios que hoje sustentam as termelétricas para financiar a aposentadoria antecipada das usinas e programas de requalificação profissional. Em vez de gastar dinheiro público para prolongar uma atividade em declínio, usar esses recursos para preparar trabalhadores e municípios para novas cadeias produtivas. É uma solução que protege empregos e comunidades, mas acelera a transição.
O governo, por sua vez, demonstra zelo excessivo. Prefeitos e deputados das regiões carboníferas pressionam para manter o carvão, porque dependem dos impostos e dos votos. Há medo de repetir traumas como os vividos no Vale dos Sinos, quando a indústria do couro e calçados perdeu competitividade internacional e milhares de empregos desapareceram sem que houvesse plano de reconversão. Ou como em Farroupilha, quando o fechamento da Grendene deixou um vazio econômico difícil de preencher. Esses exemplos mostram que quando o mercado muda sozinho, sem planejamento, os impactos sociais são devastadores.
Mas há uma diferença fundamental: a transição energética não é uma surpresa de mercado, é uma necessidade climática e uma decisão política. O governo tem a chance de planejar, de antecipar riscos e de criar alternativas. Alongar o prazo até 2043 pode parecer prudente, mas na prática é uma forma de adiar o inevitável e comprometer a credibilidade do Estado. Investidores internacionais e políticas nacionais já exigem metas mais ambiciosas. Quem demora, perde espaço.
E há um paradoxo curioso: enquanto o governo teme os impactos sociais do fim do carvão, outras forças, como a inteligência artificial, já estão eliminando empregos em escala muito maior e mais rápida. A tecnologia não pede licença, simplesmente transforma o mercado. Se o Estado não se prepara para isso, o choque será ainda maior. Por que, então, tanto zelo apenas com o carvão? A resposta está na política: proteger setores tradicionais rende votos, mesmo que comprometa o futuro.
A transição energética deveria ser encarada como oportunidade, não como ameaça. O Rio Grande do Sul tem potencial imenso em energia solar, eólica, biometano e hidrogênio verde. Tem universidades, centros de pesquisa e empreendedores prontos para liderar essa mudança. O que falta é coragem política para assumir metas mais ambiciosas e trabalhar os riscos de frente, em vez de empurrá-los para o futuro.
O dilema do governador é real: equilibrar compromissos climáticos com a sobrevivência econômica de cidades carboníferas. Mas a história mostra que alongar prazos não evita crises, apenas as adia. O couro e o calçado não voltaram a ser o que eram, e o carvão também não será. A diferença é que agora temos a chance de planejar a transição, de torná-la justa e de criar novos caminhos. O zelo excessivo pode parecer prudência, mas na verdade é medo. E medo não constrói futuro.

* Renato Zimmerman é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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