Quarta-feira, 11 de março de 2026
Por Redação O Sul | 1 de maio de 2020
O ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu, pela primeira vez, que o Banco Central (BC) pode emitir moeda para conter a crise. O BC pode também comprar dívida interna para financiar a dívida pública, afirmou. Ao comentar o assunto, em audiência pública do Congresso Nacional, o ministro disse que um bom economista não tem dogmas.
“É possível emitir moeda? Sim”, disse Guedes.
Emitir moeda significa colocar mais dinheiro na economia, o que pode ser feito inclusive por meio de aumento na impressão de cédulas.
A emissão precisa ser autorizada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), hoje composto por Guedes, pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto, e pelo secretário de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues Júnior.
O ministro desenhou um cenário de inflação zerada e juro baixo para justificar a eventual emissão. A consequência mais clássica da emissão de moeda é o descontrole da inflação ou mesmo uma crise hiperinflacionária.
Defesa da medida
“Imprimir dinheiro” para financiar o governo é defendido, por exemplo, pelo ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BC Henrique Meirelles, que aposta na expansão da base monetária por meio da redução dos juros.
“Se cair numa situação que a inflação vai praticamente para zero, os juros colapsam, e existe o que a gente chama da armadilha da liquidez, o Banco Central pode sim emitir moeda e pode sim comprar dívida interna”, disse Guedes.
Tecnicamente, a chamada armadilha de liquidez ocorre quando a taxa de juros nominal chega a zero ou próximo a isso, e a política monetária perde força. Com isso, os métodos tradicionais para incentivar a economia tornam-sem ineficazes.
Nessas situações, os agentes do mercado deixam de esperar grandes retornos dos investimentos, concentrando essas aplicações no curto prazo. Com isso, a economia entraria num estado de recessão maior, além de deflação.
Por conta do coronavírus e das medidas tomadas para combater o vírus, a dívida pública deve disparar nos próximos meses, o que levantou questionamentos dos senadores sobre a capacidade do país em financiar as ações.
Guedes disse que o BC pode até mesmo comprar a dívida interna.
“Ele (o BC) pode recomprar dívida interna. Se a taxa de juros for muito baixa ninguém quer comprar título muito longo e aí pode monetizar a dívida sem que haja impacto inflacionário”, disse o ministro.
Fontes próximas ao ministro dizem que Guedes pintou um cenário extremo, que dificilmente ocorrerá, para falar na expansão de moeda.
O presidente do Banco Central já se manifestou contrário à emissão de moeda para financiar os gastos do governo no combate à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus.
Uma proposta de emenda à Constituição (PEC) chamada de “Orçamento de guerra” permite ao BC comprar títulos públicos e privados no mercado secundário.
‘Farra eleitoral’
Na audiência, o ministro disse também que os recursos que serão transferidos do governo federal para estados e municípios não podem ser transformado em aumento para servidores públicos porque isso seria uma “covardia” e “traição” com o povo brasileiro.
Guedes afirmou que é preciso prosseguir com as reformas.
“Mas nós sabemos que o mundo espera que as reformas prossigam e que a gente tenha austeridade do ponto de vista de entender que numa crise de saúde não falta dinheiro para a saúde, mas isso não pode virar uma farra eleitoral”, completou.
A fala sobre “farra” eleitoral foi uma crítica velada ao ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, com quem Guedes tem tido atritos nos últimos dias. Guedes também afirmou que o BC está usando as reservas internacionais, o que tem reduzido a dívida pública.
O ministro afirmou depois que uma solução para não ser necessário emitir moeda seria o Congresso aprovar uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com boa parte dos fundos públicos e transfere R$ 250 bilhões para reduzir a dívida.
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