Terça-feira, 07 de abril de 2026
Por Edson Bündchen | 5 de fevereiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Em um mundo fascinado por figuras magnéticas, é quase natural associar liderança a carisma. Desde a política até o ambiente corporativo, tendemos a acreditar que quem fala bem, inspira emoções e domina o palco está automaticamente apto a conduzir pessoas e organizações. No entanto, essa associação sedutora esconde o perigo real de transformar o carisma em substituto da competência, da ética e da responsabilidade. É justamente esse risco que Peter F. Drucker nos convida a enxergar com lucidez.
Ao afirmar que “o carisma passa a ser a anulação de líderes”, Drucker provoca. Ele não nega a existência de pessoas naturalmente carismáticas, mas alerta para o efeito negativo que esse “presente” pode produzir quando não é disciplinado por valores, desempenho e autocrítica. O carisma, quando absolutizado, tende a gerar líderes inflexíveis, enamorados da própria imagem, surdos às críticas e resistentes à mudança. O encanto, nesse caso, não ilumina, mas cega. Na política, especialmente, esse dano pode ser ainda mais grave, já que o carisma atrai votos que mais tarde ficarão órfãos de uma gestão mais consequente, justamente pela falta de substância, de conteúdo.
O problema central não é o carisma em si, mas o que ele pode alimentar. A admiração constante cria uma bolha de aprovação que afasta o líder da realidade. Cercado por aplausos, ele passa a confundir popularidade com legitimidade e simpatia com competência. O risco é substituir o trabalho duro da liderança, que envolve decisões difíceis, prestação de contas e escuta ativa, por uma performance sedutora, porém vazia de resultados sustentáveis.
Drucker sempre tratou a liderança como prática, não como dom. Para ele, liderar é antes de tudo assumir responsabilidade. É construir confiança por meio de integridade, consistência e resultados. É demonstrar, no cotidiano, que o poder não está a serviço do ego, mas da missão. Nesse sentido, o verdadeiro líder não é aquele que encanta plateias, mas o que forma pessoas, desenvolve talentos, promove cooperação e cria condições para que outros também liderem.
Quando o carisma não é subordinado a padrões éticos e a uma cultura de prestação de contas, ele facilmente degenera em autoritarismo. O líder carismático, convencido de sua excepcionalidade, tende a se ver acima das regras. Sua intuição passa a valer mais que os dados, sua vontade mais que os processos, sua imagem mais que os resultados. A organização, por sua vez, entra num ciclo perigoso: pessoas deixam de discordar, a diversidade de ideias é sufocada e os erros deixam de ser corrigidos a tempo.
É por isso que a liderança sólida exige algo mais profundo do que charme e eloquência. Exige caráter. Exige humildade para aprender, coragem para ouvir e maturidade para mudar. Exige também uma visão de liderança como construção coletiva, não como espetáculo individual. O líder que depende apenas do brilho pessoal fragiliza a equipe; o que compartilha poder, fortalece.
O carisma pode ser um recurso, mas nunca o alicerce. Ele precisa estar a serviço de algo maior: de valores claros, de objetivos comuns e de uma prática diária orientada por responsabilidade. Quando subordinado a modelos colaborativos, consultivos e conectivos, o carisma deixa de ser risco e se torna instrumento. Ele passa a facilitar o diálogo, não a bloquear a crítica; a inspirar pelo exemplo, não a impor pela sedução.
No fim das contas, a legitimidade da liderança não nasce do encantamento, mas da coerência entre discurso e ação. Não vem apenas do brilho pessoal, mas da confiança construída ao longo do tempo. Em uma era que celebra imagens rápidas e líderes “instagramáveis”, lembrar de Drucker é um ato de resistência intelectual: liderar não é somente ser admirado, é ser responsável. E isso, definitivamente, não cai do céu, mas é fruto de uma construção de responsabilidade e coerência ao longo de uma vida.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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