Domingo, 18 de janeiro de 2026
Por Edson Bündchen | 13 de novembro de 2025
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Com a COP 30, o mundo volta os olhos para a Amazônia, agora símbolo e termômetro do que seremos capazes de fazer, ou de perder, diante da emergência climática. A conferência reúne líderes, cientistas e ativistas em busca de um pacto que parece óbvio, mas que continua a nos escapar: cooperar globalmente para garantir a sobrevivência da própria espécie. Trata-se de um esforço que deveria ser amplo, geral e com pouca resistência, porém não é o que se observa. Os interesses conflitantes entre os países, as abissais diferenças econômicas que separam ricos e pobres e o renitente fenômeno do negacionismo climático são obstáculos que operam em sentido contrário ao bom senso.
Mas existem muitas vozes que desafiam aqueles que preferem fechar os olhos ao óbvio. Como disse, a propósito dessa emergência, o príncipe britânico William, na abertura do evento, “nós devemos nos guiar pela gratidão silenciosa de quem ainda não nasceu”. A frase, carregada de simbolismo poético, não conta com adesão automática, pois nem todos partilham dessa mesma consciência.
A ausência da nação mais poderosa do planeta e o negacionismo ativo de sua maior liderança política revelam o quanto ainda somos reféns de uma lógica infantil: a incapacidade de adiar o prazer imediato em troca de um benefício futuro. Essa imaturidade coletiva tem nome e metáfora. Ela foi sintetizada na famosa experiência do marshmallow, conduzida por Walter Mischel, na Universidade de Stanford, nos anos 1960.
Naquele estudo, crianças recebiam um doce e eram convidadas a esperar 15 minutos para, então, ganhar outro. As que resistiam à tentação do consumo imediato apresentavam, anos depois, melhores resultados acadêmicos e profissionais. A lição era simples: quem sabe conter o impulso de hoje, conquista mais amanhã.
Quase meio século depois, seguimos repetindo o mesmo erro das crianças impacientes. Diante da crise climática, insistimos em devorar o marshmallow do crescimento rápido, do consumo ilimitado e dos combustíveis fósseis, mesmo sabendo que o preço virá com juros para as próximas gerações. Preferimos explorar até o limite o que resta das florestas, rios e oceanos, fingindo que a conta não cairá sobre nós. O sentido econômico imediatista, sem considerar que o futuro vem a galope, ignora não apenas riscos financeiros que inevitavelmente serão decorrência de tal miopia, mas despreza o destino de gerações que nos sucederão, numa indiferença moralmente sinistra e deplorável.
O Brasil, anfitrião da conferência, encarna essa contradição. Somos o país com maior patrimônio ambiental do planeta, mas também um dos que mais sofrem com o desmatamento, a poluição e a desigualdade. Temos todas as condições para liderar uma transição verde, energia limpa, biodiversidade, tecnologia agrícola, mas frequentemente sucumbimos à velha tentação do curto prazo: liberar garimpos, expandir fronteiras agrícolas e transformar o que é de todos em lucro para poucos.
A COP 30 oferece uma oportunidade rara de mostrar que aprendemos a lição da pesquisa feita em Stanford. Que somos capazes de adiar o doce imediato da exploração predatória para colher o benefício duradouro da sustentabilidade. Isso exige coragem política, visão de longo prazo e, sobretudo, maturidade moral, algo que as crianças do experimento ainda não tinham, mas que os líderes mundiais já deveriam possuir. Alguns, de modo controverso, continuam a manifestar até desprezo por uma causa que se impõe aos nossos olhos diariamente.
Se o mundo falhar novamente, não será por falta de avisos. Será por falta de autocontrole. A civilização que não aprende a esperar, que confunde crescimento com consumo e desenvolvimento com destruição, arrisca-se a não deixar herdeiros para agradecer, silenciosamente, o que foi preservado. O futuro, nesse caso, depende tanto daqueles capazes de conter seus impulsos imediatistas, quanto da conversão de quem insiste em desprezar as toneladas de evidências climáticas que estão a assombrar o nosso amanhã.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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