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Colunistas O toque de teste: quando a intimidade vira um pedido de esmola

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O sexo dentro de uma relação saudável não é um produto que um consome e o outro fornece por caridade. É uma construção conjunta

Foto: Divulgação
O sexo dentro de uma relação saudável não é um produto que um consome e o outro fornece por caridade. É uma construção conjunta. (Foto: Divulgação)

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Entre casais, existe um gesto silencioso que já destruiu mais autoestima do que balança de farmácia na porta de entrada. Ele acontece no escuro, debaixo do lençol, e quase ninguém fala sobre isso. É o famoso “toque de teste”.

O relógio marca meia-noite, as luzes estão apagadas e começa a execução da coreografia mais humilhante da vida adulta: aquele movimento estratégico em que você estica discretamente o dedão do pé por debaixo do lençol para raspar na perna do parceiro.

É um ensaio geral para testar a temperatura do desejo alheio. Se o corpo do outro congelar, contrair ou pior ainda, emitir um ronco nitidamente teatral de quem acabou de fingir um desmaio sonolento, a libido baixa e o dedão recua estrategicamente.

Parabéns, você acaba de ser rejeitado sem dar uma única palavra. No longo prazo, essa dinâmica transforma um dos cônjuges no eterno “pedinte” da relação.

Passar anos sendo o único a tomar a iniciativa do sexo não é apenas cansativo; é um moedor invisível de autoestima alheia. No divã dos terapeutas de casal, e posso me incluir nesta lista, esse drama atende pelo nome pomposo de desejo sexual hipoativo relacional.

Traduzindo para o bom português: é a famosa “síndrome do motor de arranque queimado” contra o “eterno empurrador de carro velho”.

A ciência comportamental explica que, na maioria das vezes, o parceiro que finge demência sob o lençol não deixou de amar. O problema é que o casal funciona em dois sistemas operacionais completamente diferentes, conceito que a pesquisadora Emily Nagoski chama de desejo espontâneo versus desejo responsivo.

Funciona assim: o “Iniciador Oficial” tem o motor 2.0 turbo. O desejo dele é espontâneo, brota do nada, basta olhar para o teto limpo que a faísca acende. Já o parceiro passivo é movido a desejo responsivo.

É como você comparar dois supercarros com tecnologias diferentes, um é a gasolina, e funciona por combustão, já o outro é elétrico, a bateria tem que estar bem carregada, precisa de contexto, de um elogio na hora do almoço, de uma louça lavada, de um gesto de carinho ou algo que provoque admiração, ou, então, de meia hora de cafuné para começar a pensar no assunto.

E é justamente aí que muitos casais se perdem. Dormir abraçados, reservar momentos de carinho, pele com pele, olho no olho, sem cobranças, sem pressão. São comportamentos que podem ajudar na receptividade do parceiro durante a intimidade.

Tudo isso se resume àquela sensação de que a intimidade virou uma negociação diplomática da ONU às onze e meia da noite ou em plena madrugada.

O nó cego da relação acontece quando o “Parceiro Turbo” com motor a combustão cansa de carregar o piano sozinho e entra em crise de rejeição, achando que virou o estorvo da relação.

Enquanto isso, o “Parceiro de motor elétrico” passa a enxergar qualquer abraço carinhoso na cozinha como uma intimação judicial ou um “boleto do prazer” com vencimento para as 23h.

Resultado?

Um se afasta para não criar expectativas. O outro se transforma no chato que vive mendigando atenção.

A grande virada de chave para salvar o casal dessa armadilha é entender que a iniciativa não pode ser um imposto cobrado sempre do mesmo CPF. Para que o desejo flua.

O sexo dentro de uma relação saudável não é um produto que um consome e o outro fornece por caridade. É uma construção conjunta.

Se você é o passivo da relação por puro conforto ou timidez, saiba que a sua inércia está enviando uma mensagem diária de abandono para quem está ao seu lado. A passividade também rejeita.

Para quebrar esse ciclo de mendicância afetiva, os casais precisam abolir o “toque de teste” e criar um combinado, onde a responsabilidade pela iniciativa precisa de revezamento.

O parceiro tipicamente passivo assume a missão de ligar a chave da ignição. Pode ser uma mensagem provocativa no meio da tarde ou com um beijo mais demorado ao chegar do trabalho, ou qualquer gesto que deixe claro: “eu desejo você”. E nada de amarelar na primeira curva ou dar desculpa de que o trânsito mental estava pesado.

Porque ninguém merece passar a vida inteira esticando o dedão do pé no escuro procurando o acelerador para descobrir se ainda é desejado. Quando apenas um dos dois continua fazendo o toque de teste, e fazendo o motor roncar alto, o problema já não é mais falta de intimidade, é a falta de reciprocidade.

Que tal regular o seu motor do desejo?

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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