Terça-feira, 18 de agosto de 2026
Por Marcos José Leite Santos | 18 de agosto de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Um dos meus alunos de doutorado acaba de voltar ao Brasil depois de passar seis meses na Itália. Desde que colocou os pés de volta no Brasil, parece ter uma única coisa na cabeça: terminar o doutorado o mais rápido possível e voltar para a Itália, e desta vez, para ficar.
Ele está prestes a conseguir a cidadania italiana por direito de sangue, então a Itália sempre esteve nos seus planos. Mas alguma coisa mudou durante esses seis meses.
“Não é que minha vida aqui seja ruim”, ele me disse. “É que a vida lá é muito mais leve.”
Eu já tinha ouvido a mesma explicação de outra aluna, depois de um período de doutorado no Canadá. Mas a história dela tomou outro rumo. Ela decidiu ficar no Brasil e voltou para a Serra Gaúcha, onde hoje tem um boa vida.
Então talvez essa não seja, necessariamente, uma história sobre desespero, e falta de oportunidades. Pelo menos, não sempre.
Certamente não é tão simples quanto dizer que os jovens brasileiros estão indo embora porque podem ganhar mais dinheiro no exterior. Essa conta mudou.
O custo de vida em muitos países aumentou bastante. Aluguel, comida, transporte e as despesas do dia a dia podem consumir uma parcela grande de um salário que, visto do Brasil, um dia pareceu muito atraente. Mas não é mais. Muitos brasileiros que partiram pensando em ficar estão agora voltando para casa.
Então, o que está levando os outros?
Comecei a pensar nisso há alguns dias, quando fui buscar meus filhos na escola.
Moramos no bairro Petrópolis, onde temos mercados, restaurantes e cafés a poucos minutos de caminhada. Ainda assim, como tantas famílias, usamos o carro para quase tudo.
Naquele dia, em vez de entrar no carro, fomos caminhando até o mercado.
Minha filha, de 10 anos, olhou em volta e disse:
“Que legal, papai. Caminhar! A gente não precisa usar o carro para tudo.”
Eu já estava preparando aquele discurso de pai preocupado. Ia explicar os perigos de andar pela cidade, principalmente à noite. Que as ruas nem sempre são seguras, que havia postes com lâmpadas queimadas e que poderíamos ser assaltados. Que era preciso tomar cuidado.
Mas parei.
Respirei fundo e disse:
“É, filha. É muito bom mesmo.”
E era.
Por alguns minutos, não vi o poste apagado ou todas aquelas coisas com as quais aprendemos a nos preocupar. Vi apenas um pai e sua filha caminhando juntos até o mercado em um entardecer qualquer.
E talvez, ali, naquele momento, eu tenha entendido o que meus alunos queriam dizer quando falaram que a vida lá era “mais leve”.
Não é necessariamente ter mais dinheiro. Às vezes, é ter menos coisas com que se preocupar.
É poder caminhar em vez de dirigir. Pegar um trem em vez de ficar preso no trânsito. Saber que seu filho pode ir a algum lugar sozinho. Ter uma relação saudável com o trabalho e com a vida pessoal. Sentir que algumas coisas simples do cotidiano exigem menos planejamento, menos cuidado, menos ansiedade.
Nada disso significa que viver no exterior seja fácil, porque não é.
Mas talvez esse nem seja o ponto.
Os jovens brasileiros que vão embora não estão necessariamente procurando uma vida mais fácil. Talvez estejam procurando uma vida que pareça mais possível.
Não sou um jovem decidindo se vai embora. Sou um professor universitário vendo uma geração ir embora, e um pai vendo meus filhos crescerem.
E às vezes me pego pensando:
Em que país meus filhos vão querer viver quando chegar a hora de escolher?
O Brasil já foi a resposta para milhões de imigrantes.
Foi o lugar para onde tantos vieram em busca de um futuro que não conseguiam enxergar em seus países de origem.
Vieram para cá porque acreditavam que a vida poderia ser melhor.
Agora, alguns de seus netos e bisnetos estão atravessando o mesmo oceano na direção contrária.
Talvez o desafio do Brasil não seja de convencer os jovens a ficar.
Talvez seja construir um país onde eles queiram ficar.
Um país onde “a vida é mais leve” não seja algo que eles precisem descobrir do outro lado do oceano.
* Marcos José Leite Santos – professor da UFRGS
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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